sábado, 21 maio, 2022
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    Economia solidária: caminhos da teoria para a prática

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    Economia solidária: caminhos da teoria para a prática

    “Ok, concordamos que é necessário pensar uma vida mais sustentável e solidária, mas como isso se dá na prática? ”

    Após os dois primeiros textos, alguns leitores questionaram: “ok, concordamos que é necessário pensar uma vida mais sustentável e solidária, mas como isso se dá na prática? ”. Entendendo que os textos tinham um objetivo mais provocativo mesmo e que sim, é necessário pensar em ações práticas que viabilizem todas essas “palavras bonitas”, vou tentar apresentar aqui algumas iniciativas das quais participei ou que conheci.

    Tentei lembrar sem sucesso qual teria sido meu primeiro contato com a Economia Solidária. A lembrança mais distante que me vem em mente é uma oficina de Economia Solidária e Gestão de Empreendimentos Criativos que o Circo do Capão realizou em 2012. Lembro que, na ocasião, eu questionava o que era “preço justo”, já que a classe trabalhadora não tinha condições de pagar um sabonete artesanal, ecológico e sustentável no valor de sete reais e acabava optando por um industrial de dois reais. Preço justo para quem? Quem é o público desta economia solidária?

    Desde 2013 trabalho com projetos de fomento a organização de grupos produtivos na área de artesanato e de agricultura familiar com base na economia solidária. Nestes quase oito anos pude perceber que dos produtos culturais (artesanato) aos alimentícios (agricultura) as dificuldades que os grupos enfrentam são geradas por questões semelhantes. A falta de experiência na auto-gestão, feita de forma horizontal e coletiva; as dificuldades em acessar os mercados, tanto por conta da falta de estruturação no processo produtivo, quanto na ausência de uma comunicação e marketing, além das dificuldades relativas à logística, configuram os principais obstáculos vivenciados pelos grupos. Assim, percebe-se que os desafios encontrados por estes empreendimentos estão mais conectados com o fato mesmo de empreender, do que com os princípios da economia solidária que os norteiam.

    Saindo um pouco da minha experiência e indo buscar referências de ações e empreendimentos solidários em outros territórios

    Saindo um pouco da minha experiência e indo buscar referências de ações e empreendimentos solidários em outros territórios, não poderia deixar de citar a iniciativa do Banco Palma, experiência mais que exitosa na periferia de Fortaleza, que além do banco comunitário, criou a moeda social “Palmas” e uma série de empreendimentos solidários que mudou a história do Conjunto Palmeira. Outra experiência muito interessante, agora em solo baiano, é o caso da comunidade de Matarandiba, localizada na Ilha de Itaparica.

    A comunidade foi beneficiada com um projeto de desenvolvimento comunitário que implementou um banco comunitário, uma moeda social, a “Concha”, e fomentou a estruturação de empreendimentos solidários como uma agência de turismo de base comunitária, uma horta comunitária, uma padaria, além do fortalecimento de grupos culturais locais. Todos estes empreendimentos foram fomentados através da associação comunitária, responsável pela gestão do banco. Simplificando as coisas: o banco comunitário empresta dinheiro na forma de moeda social para moradores que solicitam crédito para consumo, por exemplo. A moeda pode ser utilizada nos empreendimentos solidários locais, empreendimentos parceiros da própria comunidade e até de fora. Ou seja, o objetivo da moeda social é circular, pois não há ganho no seu acúmulo.

    A meu ver, a experiência de Matarandiba é inspiradora para o Vale do Capão, pois ela consegue relacionar o turismo (de base comunitária) com o desenvolvimento local de forma solidária e sustentável. A introdução de uma moeda social é crucial para o sucesso desta iniciativa. No caso do Vale do Capão, tenho conhecimento de algumas iniciativas de economia solidária, como a produtora colaborativa focalizada pelo Circo do Capão e a Coope Capão, cooperativa de consumo, das quais fiz parte, além das feiras de troca com inserção de uma moeda social chamada “Brilho” e em seguida “Vale”.

    Para alguns autores, as comunidades com maior vulnerabilidade social teriam maior propensão para implementação de iniciativas como banco comunitário e moeda social. Ou seja, as pessoas em situação de pobreza ou exclusão do sistema capitalista vigente teriam mais abertura e necessidade de adotar estas iniciativas. O Vale do Capão viveu nos últimos anos um desenvolvimento econômico intenso, sendo muito mais vantajoso vender terra, construir casas de aluguel ou abrir um comércio com foco nos turistas do que pensar em formas alternativas de economia.

    A situação atual de isolamento e paralisação do turismo talvez seja um elemento importante para uma mudança de paradigma. Teríamos agora uma necessidade urgente de impulsionar uma economia local baseada principalmente na produção e consumo de bens e serviços locais. Trocando em miúdos e exagerando um pouco, temos uma barreira sanitária que nos isola do mundo, mas precisamos continuar produzindo riqueza (entendida aqui em seu sentido mais amplo) e fazendo a economia girar.

    Por fim, para não dizerem que não falei da prática, gostaria de compartilhar aqui um trecho de um estudo que fiz em 2015 a respeito do que seria necessário para a implementação de uma moeda social no Vale do Capão. Lembrando que esta não é a única modalidade em que a economia solidária se dá na prática, mas é aquela que acredito ser mais condizente com as demandas do cenário atual.

    Seguem então alguns passos necessários no sentido de pensar uma moeda social na comunidade:

    1. Organizar um grupo que lidere os encaminhamentos da pauta “moeda social” dentro da comunidade;
    2. Promover uma articulação com lideranças e formadores de opinião (líderes associativos, educadores, professores, etc.), divulgando as metodologias de implementação e os ganhos;
    3. Divulgar a iniciativa, por meio de reuniões ampliadas, para comerciantes, produtores agrícolas, produtores de produtos beneficiados localmente, prestadores de serviços (médicos, dentistas, massagistas, designers, produtores, advogados, etc.);
    4. Produzir cartilhas, panfletos e cartazes para divulgação da ideia dentro do povoado;
    5. Redigir um Estatuto com normas de funcionamento para utilização da moeda social;
    6. Promover as primeiras experiências com a moeda social que podem ser materializadas de diversas formas: feira de troca, moeda nas escolas, banco comunitário, etc. (a ser definido pela comunidade).

    É isso meu povo, a prática é sempre um pouco mais trabalhosa que a teoria, e no caso da economia solidária, é sempre feita a muitas mãos. De todo modo, é sempre bom ancorarmos nossas práticas em conhecimentos teóricos que embasem nossas decisões e que nos norteiem. Por isso, a meu ver, não há prática sem teoria e a discussão sobre qual das duas é mais importante é infecunda. Assim, lanço mão desses “passos” para a construção de uma moeda social, acreditando que alguns de vocês terão interesse em concretizar este “sonho”. Vocês já imaginaram ter uma moeda que possibilite comprar hortaliças de um produtor local na feira, que poderá pagar parte de suas compras no mercado, que passará ao artesão parte do valor dos sabonetes artesanais vendidos em seu comércio, e o artesão pagará uma parte da pizza entregue por delivery, e o pizzaiolo, por sua vez, pagará uma parte do salário do funcionário, que poderá comprar hortaliças na feira. E assim a moeda cumprirá o seu principal objetivo que é de circular, possibilitando às pessoas acessarem bens e serviços, ao invés de ficar guardada debaixo de um colchão.

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    Melissa Zonzon
    Melissa Zonzon
    Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.
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    4 COMENTÁRIOS

    1. Que ótimo! Muito bem colocada a importância e os passos para o enraizar e cultivar práticas de economia solidária, abrindo perspectivas para um desenvolvimento cultural no Vale do Capão afinado à movimentos favoráveis a nossa saúde socioambiental! Gracias Melissa

    2. Parabéns Melissa, ter um economia independente do sistema capitalistas maior objetivo para alcançar independência em todos sentidos, e um belo sonho para nosso comunidade. Quando tiver reunião sobre assunto quero participa.

      • Sim, com certeza! Para isso é necessário uma mobilização e organização da comunidade. A ideia do texto é jogar uma sementinha para que as pessoas se sensibilizem com o tema e em seguida se mobilizem para possíveis encontros.
        Obrigada pelo retorno!

    3. Muito bom ler estas ideias, conhecer melhor as etapas que resultaria na prática do que sabemos, ou sentimos, ser uma excelente alternativa! Que o Portal, Prosa Mel e Limão e muitos dos que aqui acompanhamos todo o potencial do Vale do Capão possamos nos unir em prol desta e outras iniciativas de união aqui no Vale. Quando seria a primeira reunião online?

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    O que seria do Vale do Capão sem os movimentos coletivos?

    O que seria daqui sem as atividades artísticas? Onde você levaria seu filho(a) se não tivesse o Circo, as escolas infantis? O que os hóspedes da sua pousada fariam no sábado à noite na vila se não tivessem os artistas de rua e músicos?

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