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Economia Solidária: Um caminho para o “novo normal”?

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Economia Solidária: Um caminho para o “novo normal”?

Desde o início da Pandemia e toda crise gerada por ela, ouço muitas pessoas dizerem que neste cenário as desigualdades sociais foram escancaradas, que o momento exige posicionamento e ação. Solidariedade seria a palavra do momento.

Em pouco tempo vimos brotar dezenas de movimentos em prol da doação de máscaras e artigos de higiene, doação de alimentos e roupas; pessoas renegociando seus alugueis, mensalidades de escola e cursos em geral; pessoas doando gratuitamente seus saberes em lives, cursos, e-books, tutoriais. Em pouco tempo desenvolvemos diversas estratégias de compartilhamento de recursos, uma real economia não monetária se desenvolve entre aqueles que, cientes dos impactos sociais e econômicos desta crise, se dispõem a agirem em prol do coletivo.

Em paralelo, ouvimos o discurso de que a economia vai quebrar. Milhares de pessoas desempregadas, pequenos empreendimentos fechando suas portas, um clima de desamparo e desespero toma conta das narrativas sobre a atual crise sanitária, social e econômica que estamos vivendo. Em meio a este turbilhão de informações (e muita desinformação) que absorvemos diariamente, o discurso de uma crise econômica sem precedentes prevalece. A economia baseada apenas na troca monetária mostra toda sua fragilidade e nos vemos obrigados a repensar todo modelo de desenvolvimento vigente.

Observem que momento único: correntes de solidariedade e redistribuição de renda são colocadas em prática, ao passo que as fragilidades (e porque não dizer crueldades) do modelo econômico capitalista vigente se evidenciam. Não demorou muito para eu me lembrar de um conceito muito interessante trazido pelo professor Genauto França Filho, meu orientador da dissertação de mestrado que fiz em 2017 sobre a sustentabilidade de empreendimentos culturais com base no diálogo entre Economia Solidária e Economia Criativa. Pois bem, Genauto, inspirado nos escritos da Antropologia Econômica, nos traz o conceito de Economia Plural com o intuito de dar conta da diversidade de componentes e relações existentes dentro da dimensão econômica da vida social. Ou seja, as relações econômicas não mais entendidas apenas como a troca de bens e serviços mediada pela moeda (relações mercantis monetárias), mas também relações de redistribuição (não mercantis) e de reciprocidade (não monetárias).

Em outras palavras, as relações econômicas podem ser mercantis, quando por exemplo eu vendo um produto ou serviço; elas podem ser não mercantis, quando o Estado, por exemplo, redistribui recursos como Auxílio Emergencial, Bolsa Família e até mesmo via Editais; e elas podem ser não monetárias, quando doamos cestas básicas, cursos ou lives. Essa perspectiva da Economia Plural, que faz parte do arcabouço teórico da Economia Solidária, nos permite entender que: 1. A economia solidária não é uma proposta utópica de substituir o modelo capitalista por relações de trocas não monetárias como as feiras de troca e bancos de horas, mas uma forma de conceber as diversas formas do fazer econômico, buscando o desenvolvimento social; 2. Ao enxergarmos a diversidade de relações econômicas possíveis, percebemos que a economia não está quebrando totalmente, outras formas do fazer econômico estão se fortalecendo e possibilitando nossa sobrevivência enquanto sociedade.

Dito tudo isso, gostaria de convidar vocês a pensarem dentre nossas reais necessidades de vida, o que imprescindivelmente só pode ser viabilizado via troca mercantil monetária, como as contas de água e luz, por exemplo, e o que pode ser viabilizado por outras formas de economia? O que eu mesmo posso produzir, quais serviços posso oferecer em troca daqueles que preciso? Quais parceiros posso me juntar para resolvermos gargalos comuns? A pandemia, e consequentemente o isolamento social, nos fez perceber o quanto podemos ser atores de nossas vidas, cuidando de nossas casas, alimentação, saúde e tarefas cotidianas que historicamente ou culturalmente delegamos. Em alguns meses vimos as pessoas aprenderem a fazer faxina, cozinhar, cortar cabelo, consertar coisas quebradas, costurar…Enfim, uma série de serviços que antes precisariam contratar pessoas para realiza-los. Isto também é economia, acreditem! Por outro lado, vimos nossas necessidades de consumo reduzirem, ou ao menos mudarem.

Outro ponto que gostaria de acrescentar a essa reflexão é a centralidade da economia dita convencional na nossa visão de desenvolvimento. Ou seja, desde os planos governamentais até o que fazemos no nosso cotidiano deve sempre ter como primeiro foco a economia. Durante as eleições, por exemplo, é fácil observar como propostas governamentais com foco no desenvolvimento social, nos direitos humanos ou as questões ambientais são tidas como utópicas ou menos importantes que aquelas com foco no crescimento econômico do país. Na perspectiva da Economia Solidária, o desenvolvimento econômico é sim importante, mas possui outros indicadores como o desenvolvimento social, a redução das desigualdades e o uso sustentável dos recursos naturais.

Trazendo estas indagações para o Vale do Capão, onde, acredito eu, o campo das possibilidades aumenta, tendo em vista nosso privilégio em poder plantar alimentos e a existência de uma diversidade de produtos e serviços dos mais diversos setores: saboaria artesanal, roupas, artesanato, produtos alimentícios, engenheiros, arquitetos, advogados, médicos, artistas, professores, costureiras, lavradores, designers, fotógrafos, cozinheiros, educadores, produtores, palhaços e escritores. Dentre toda essa riqueza de saberes, o que posso oferecer e o que preciso? Vamos aproveitar que a economia monetária está em crise e as ilusões que ela produz caíram por terra e vamos produzir outras formas de economia?

Por fim, é importante frisar que não se trata aqui de uma romantização da precariedade. Tão pouco sugiro uma vida sem dinheiro (para falar um português claro), ou desconsidero a necessidade de políticas públicas na gestão de uma crise sanitária e econômica sem precedentes. Mas se estamos sendo capazes de compartilhar tantos recursos (humanos, materiais ou financeiros) porque não podemos estender essa realidade para o nosso “futuro normal”? Na minha humilde opinião, a Economia Solidária, tão estigmatizada pelos movimentos liberais e tão desconhecida pelo senso comum, é uma das grandes chaves para essa transformação, se uma transformação ainda for possível.

*O conteúdo dessa postagem é de inteira responsabilidade do autor da mesma

Melissa Zonzon
Melissa Zonzon
Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.

3 COMENTÁRIOS

  1. Muitos conceitos e indagações que permeiam meu pensamento faz tempo… e ler esse leque novamente só acentua o desejo de transforma a teoria em prática… Que destes diálogos possamos tomar ações (aos que ainda não as tem), seguir as mesmas (os que já trilham este caminho), mas sim, o mais importante que plantemos essa semente em muitos bolsos (não somente bolsos), mas em muitos corações <3

    • Sim! Pois estamos inundados de ofertas, que acabam criando a ansiedade do consumo. Partindo da demanda a gente “regular” melhor as relações econômicas.

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