domingo, 19 setembro, 2021

Manipulação e Meritocracia no Tear dos Sonhos

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Manipulação e Meritocracia no Tear dos Sonhos

Golpe dos Sonhos
Arte por: Thais de Albuquerque. Thais de Albuquerque é moradora de Lençóis-BA e artista visual. Mãe e feminista, ela trabalha como designer gráfico há 15 anos e começou seus quadrinhos experimentais durante a pandemia, como forma de extravasar o peso de ser brasileira em tempos tão sombrios, de forma livre e debochada. Para acompanhar estes e outros trabalhos dela, siga no instagram: @thais.de.albuquerque

GOLPE DOS SONHOS – PARTE 02

Esta é a segunda publicação da série “Golpe dos Sonhos” feita pelo Portal Vale do Capão em parceria com o Stricto. Clique aqui para ver a série completa.

Por Flor*

Participei do movimento Tear dos Sonhos (Mandala da Prosperidade) durante um ano.

Decidi sair do movimento – inclusive sem receber o meu dinheiro de volta (5.004 reais) – quando me dei conta de que realmente se tratava de um esquema de pirâmide financeira, que beneficiava poucas mulheres às custas de deixar muitos corpos de mulheres espalhados pelo caminho.

Por mais que hoje seja obvio para mim que se trata de um esquema de pirâmide financeira, acredito que essa engrenagem falaciosa chamada Tear dos Sonhos é mais astuta e inteligente do que muita gente considera.

Para explicar melhor a afirmação que fiz, precisamos considerar o CONTEXTO HISTÓRICO em que o tear dos sonhos está inserido. Vivemos hoje em uma sociedade capitalista bastante deteriorada após 4 décadas de neoliberalismo (liberalismo à lá Escola de Chicago). No Brasil, vivenciamos quase um capitalismo de acumulação primitiva, com sucateamento e diminuição das políticas públicas, fortalecimento do capital e aumento da violência e desigualdade social. Nesse contexto e somando-se os séculos de patriarcado, as mulheres encontram-se extremamente vulnerabilizadas.

Várias razões contribuem para que as mulheres se tornem alvos mais fáceis para engrenagens falaciosas como o tear dos sonhos:

– empobrecimento feminino: estamos na base da pirâmide social, dado o machismo estrutural;

– desesperança e exaustão: no contexto das múltiplas jornadas de trabalho que enfrentamos todos os dias, em decorrência da divisão sexual do trabalho e da opressão de gênero;

– susceptibilidade emocional: a cultura patriarcal tem historicamente inferiorizado tudo o que se refere à mulher; somando-se à isso o silenciamento e a opressão estrutural que sofremos, encontramo-nos em posição mais desafiadora para termos boa autoestima e saúde.

Imagine ser convidada por alguma amiga a quem você ama e respeita para um movimento de cura e apoio entre mulheres? Um movimento que SE DIZ comprometido em hackear o capitalismo, superar o patriarcado e ser um lugar onde mulheres estão juntas num processo de realização de sonhos? Parece tentador, não?

Vale lembrar que somos educadas e socializadas dentro dos valores da cultura patriarcal, que nos conta, desde pequenas, que mulheres competem entre si e são rivais. Que você precisa ser mais bonita, mais inteligente e mais competente do que as outras. Como recebemos essa educação, acabamos reproduzindo esses valores patriarcais de separação e competição entre mulheres, o que faz com que vivamos em uma sociedade que nos oferece pouquíssimas oportunidades de vivenciar a união e apoio entre mulheres.

De repente o tear dos sonhos surge como esse lugar onde a mulher encontra a autorização para voltar a sonhar, a afirmação de que é merecedora do melhor, recebendo a escuta e o apoio de uma rede de mulheres para a realização de seu sonho e sua cura… algo que não encontramos facilmente no mundo afora…Parece um sonho! (continua lendo porque esse sonho logo vai se tornar um pesadelo)…

Logo que entra no movimento a mulher é realmente bombardeada por essa experiência de escuta, de união e acolhimento entre mulheres e recebe incontáveis mensagens: “você é merecedora, vamos destruir o patriarcado juntas, vamos nos curar e realizar nossos sonhos juntas!!”

O paradoxo: “para viver tudo isso basta doar a quantia de 5.004 reais” (a ideia é que a mulher doe um presente de 5.004 reais logo que entra, para que ao final do ciclo de “cura” proporcionado pelo tear a mulher receba um presente de mais de 40.000 reais e realize seu sonho).

Das artimanhas da engrenagem: em “letras minúsculas” te passam a mensagem de que “não há garantias de que você vá receber seu presente”. Mas essa mensagem é completamente subestimada diante do BOMBARDEIO de acolhimento e de esperança a que a mulher é submetida quando adentra o movimento.

Interessante que nenhuma “boa alma”, alguém que já tenha mais experiência e conhecimento das vicissitudes do movimento – como, por exemplo, as experientes “irmãs guardiãs”, mulheres que já completaram todo o ciclo do tear e tem a missão de apoiar, orientar e aconselhar as mandalas que estão começando -, vem te dizer que a porcentagem de mulheres que realmente recebem o presente no tear é de 12%, ou que o propagandeado “tempo lunar” (ciclo de 28 dias que deveria sustentar todo o ciclo desde a entrada da mulher até que ela receba seu presente) é extremamente raro e a maioria das mandalas estão paradas há 6 meses, um ano ou dois… Nem te contam que existem grupos gigantes de whatsapp e telegram destinado a fazer “costura” para fundir mandalas que estão se desfazendo. A mulher novata no movimento nem mesmo suspeita (e claro que ninguém mais experiente a informa) que existia essa história de mandalas se desfazerem..

Quanto às notícias de que o tear dos sonhos é pirâmide financeira existe todo um discurso pronto, de que é a matrix tentando boicotar a liberação feminina.

Num primeiro momento dentro do movimento, não é fácil a mulher novata enxergar todas as distorções e manipulações, pois ela só interage com uma rede pequena de mulheres dentro da sua própria mandala, muitas vezes composta de amigas tão iludidas e pouco informadas quanto ela. Depois de um tempo dentro do movimento, ao já ser capaz de ver mais além do que a sua própria mandala e tendo uma dimensão mais macro do movimento do tear dos sonhos como um todo, já é inevitável se dar conta de tudo isso.

As “dissidentes” do tear dos sonhos (mulheres que saem do movimento ao perceberem a cilada) são acusadas de não se responsabilizarem por sua escolha de fazerem parte do movimento.

Hoje eu sou uma dessas mulheres taxadas pelas participantes do movimento como: apegada às minhas crenças de escassez, que não conseguiu se curar, muito apegada a minha mente e movida pela raiva, que ainda não está conectada à quinta dimensão ou ao meu sagrado feminino, dentre tantos outros clichês e respostas prontas repetidas infinitamente nesse meio.

A questão que precisa ser debatida é que não se pode falar em responsabilidade individual diante de uma engrenagem que é uma pirâmide financeira, onde acontece um complexo processo de manipulação psicológica (interessante estudar sobre o fenômeno das seitas e observar as similitudes) e onde absolutamente não é passada informação completa sobre o movimento para as novatas.

Só se pode falar em direito de escolha quando se há informação suficiente, para que se possa fazer uma ESCOLHA INFORMADA. Será que se me contassem que só 12% das mulheres recebem o tal presente eu teria entrado? Será que se me contassem que o recebimento do meu presente implicaria em prejudicar outras mulheres eu teria entrado?

A mulher que não alcança receber o presente (o valor de mais de 40000 reais que receberia ao passar pela “medicina” do tear) sofre um forte assédio moral, pois o movimento considera que ela é a única responsável por não ter recebido o presente. Mas esse forte assédio moral é feito de forma muito camuflada, tecido com tom de voz amoroso e doce. Muitas mulheres nem percebem que estão sendo assediadas, tamanha a astúcia da narrativa do tear. Inclusive as “amorosas” irmãs guardiãs – diante da indignação de uma mulher que sai do movimento ao perceber a cilada – vão te acusar de ser gananciosa, de só pensar em dinheiro, porque haviam dito no inicio que se tratava de uma doação e que não haviam garantias (sobre essa narrativa manipuladora e incompleta eu já expliquei anteriormente).

Nesse ponto vale um parênteses: se estudarmos a narrativa que está na base do neoliberalismo, veremos que é exatamente a mesma narrativa propagada pelo tear dos sonhos, ou seja, o famoso discurso da meritocracia, de que cada indivíduo é totalmente responsável pelo seu sucesso ou fracasso: “basta você querer e se esforçar que vai obter sucesso” (ideia neoliberal meritocrática) = “basta você se curar que vai receber seu presente e realizar seus sonhos”(ideia meritocrática que está na base do tear dos sonhos).

A mesma narrativa individualista e meritocrática do neoliberalismo estendeu seus tentáculos para os outros campos da vida social e aparece travestido nos discursos fofos e amorosos do tear do sonhos. A mesma culpabilização da vítima, que coloca os fracassos e sucessos exclusivamente na conta do indivíduo, desprezando que existe uma série de estruturas sociais que também influenciam enormemente na possibilidade ou não do indivíduo alcançar prosperidade.

Que conveniente, não é? Quando a culpa é jogada integralmente no colo do indivíduo, desconsidera-se a realidade social, política, de gênero, raça, classe e deixa-se de questionar o sistema capitalista e a engrenagem piramidal criminosa do tear dos sonhos.

Até quando vamos continuar a colocar a responsabilidade exclusivamente na conta do indivíduo sem olhar também para as estruturas? Que coincidência que só 12% das mulheres que entram no tear se curam e são merecedoras de realizar seus sonhos… (a ironia é que não é coincidência, é um esquema de pirâmide).

Daí algumas mulheres, geralmente as que possuem melhor situação financeira, mais “capital social”, que estão há mais tempo no movimento e que geralmente iniciam as novas linhagens do tear (as famosas “irmãs guardias”), seguem “cocriando” mais abundância e recebendo vários presentes do tear, às custas de uma multidão de mulheres mais vulneráveis que seguem se endividando, aumentando sua vulnerabilidade econômica e também emocional, pois muitas ainda saem do movimento acreditando que a única razão pela qual não receberam o presente foi não terem se aberto para a medicina do tear, ou não serem “evoluídas” o suficiente.

Isso é de um nível de crueldade imensurável!

Escuto muito por aí que a sororidade entre mulheres é a parte boa do tear. Atenção: a sororidade não é a parte boa do tear! O conceito de sororidade, criado durante a segunda onda do movimento feminista como uma importante pauta para a superação do sexismo, foi cooptado pelo movimento do tear dos sonhos para sustentar uma engrenagem criminosa!

O tear dos sonhos presta um grande DESSERVIÇO à libertação das mulheres. E jamais se pode dizer que o que acontece no tear é sororidade, porque o conceito de sororidade não pode existir separado do conceito de EQUIDADE. Um movimento cuja estrutura está construída para beneficiar apenas 12% das mulheres não tem um mínimo de equidade. É classista, meritocrático, além de CRIMINOSO.

Por todas essas razões – e apesar da vergonha que ainda sinto por um dia ter participado – me sinto na responsabilidade de denunciar essa pirâmide financeira e também de compartilhar com o máximo possível de mulheres minha perspectiva sobre a Mandala da Prosperidade.

Não se iludam, mulheres!

O tear vai te chamar! No inicio vai parecer um movimento revolucionário, vai te acolher amorosamente, te fazendo sentir protegida e esperançosa! Mas esse cenário é uma grande maquiagem, porque não te contam toda a história, e quando você descobrir já vai estar até o pescoço mergulhada nessa lama!

E se você já está fazendo parte do movimento, não tenha medo de sair, se liberte! Existem grupos de mulheres organizados para te apoiar.

*(Flor é um pseudônimo adotado para proteger a identidade de quem redigiu o artigo)

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5 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom seu texto e seus esclarecimentos, fui convidada e realmente pareceu o mundo de amor e acolhimento profundo. Mas quando me falaram desta pequena “doação” já me cheirou mal. Não entrei

  2. Sou Tecelã de Sonhos com muito amor e gratidão a essa Egrégora, esse movimento foi e é uma benção em minha vida. Eu sinto muito por sua experiência e suas dores, o Tear assim como a vida é um processo individual num coletivo, cada um terá uma Vivência e se algo não deu certo em nossa vida, isso é nosso e não uma verdade para todos, então o que é bom pra mim pode não ser bom pra você. Por isso, Eu sinto muito, me perdoa, te amo , sou grata. Que toda dor seja transmutada em amor agora, assim é!

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