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O que seria do Vale do Capão sem os movimentos coletivos?

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O que seria do Vale do Capão sem os movimentos coletivos?

O que seria daqui sem as atividades artísticas? Onde você levaria seu filho(a) se não tivesse o Circo, as escolas infantis? O que os hóspedes da sua pousada fariam no sábado à noite na vila se não tivessem os artistas de rua e músicos? Que graça teriam os happy hours do Flamboyant às sextas feiras se não tivesse a banda Yayá Massemba? Quem apagaria o fogo na serra ou faria os resgates de turistas e moradores se não existisse a brigada voluntária do Vale do Capão? Quem reciclaria seu lixo se não fosse o Coletivo Capão? Onde você encontraria livros para ler se não fosse a biblioteca comunitária? Que graça teriam as quermesses sem o forró de Seu Leo? Ou será que haveria quermesses sem o empenho de parte da comunidade local em manter a tradição dos festejos de São Sebastião? Quem ensinaria sobre educação ambiental gratuitamente para as escolas se não houvesse o Horto? E teria ensino médio não fosse o ÉduCapão?

A maior parte destas atividades são promovidas por pessoas e coletivos da comunidade de forma gratuita, ou por vezes, com preços acessíveis, com o intuito de tornar o Vale do Capão um lugar melhor de se morar. Os turistas ou as pessoas que decidiram morar aqui, como eu e você, não escolheram o Capão apenas pelas suas belezas naturais. Claro que existem aquelas pessoas que não dão importância para nenhum desses itens listados acima e te ligam querendo saber apenas se sua pousada tem piscina. Mas piscina ela pode encontrar em qualquer lugar, até em Irecê. Então, podemos deduzir que o que faz do Capão esse lugar especial que muitos não querem apenas visitar, mas comprar um terreno, ainda que minúsculo, e construir uma casa, é a cultura do lugar.

Cultura entendida aqui em seu aspecto antropológico, não apenas as expressões artísticas, mas todo o conjunto de práticas, fazeres, saberes, sistema de crenças e valores da comunidade. Assim, gostaria de convidar todos vocês a pensarem um pouco nesse Capão sem a cultura da coletividade. O que faríamos sem todos esses grupos: Associação de moradores (atualmente já existem três), Associação de apicultores, Circo do Capão, Horto Comunitário, Coletivo Capão, ACV-VC, Brigada voluntária, Brilho do Cristal, Colmeia, Prosa, Biblioteca Comunitária, Escola Jardim Vagalume, Cine Caeté, Portal Vale do Capão, ÉduCapão, Comissão de festeiros, pessoas que festejam o Cosme, grupos de música, Terno das Ciganas, Recicla Capão, voluntários que reformam cemitério, banheiro público, dentre tantos outros?

Há ainda quem chame a população local de comunidade. Tenho minhas dúvidas, tendo em vista que a população tem crescido e o sentido de grupo de pessoas que se organizam sob normas e valores comuns tem se dissolvido numa infinidade de formas de fazer e viver. É importante lembrar que vivemos uma realidade na qual o poder público é praticamente ausente, então todas as questões comuns acabam sendo cuidadas pelos coletivos citados. No entanto, o desenvolvimento econômico e a necessidade incessante de progresso e crescimento têm tornado as necessidades individuais prioritárias, em detrimento do coletivo, gerando um esvaziamento e fragilização dos movimentos comunitários locais. Entendo que essa não é uma especificidade do Vale do Capão, mas sim um movimento do mundo, no qual a corrida pelo lucro instaurou um individualismo sem precedentes.

Esses dias estava pensando como é relativamente fácil morar aqui. Se você tiver um pouco de capital para investir vai comprar um terreno (ou herdar), não precisa se preocupar com tamanho mínimo. Depois você pode construir sua casa, pode ser perto do rio, não precisa se preocupar com modelo de fossa, ninguém vai te fiscalizar. Temos casos até de pessoas que perfuraram poço sem autorização e tudo bem, então se precisar pode fazer. Se a opção for fazer um reservatório enorme para reservar a água que abastece todos da sua rua e assim prejudicar seus vizinhos, também não tem impedimento. Depois você pode construir uma casa, alguns chalés para alugar ou uma pousada e gerar sua renda mensal. Melhor que seja aluguel por temporada, assim você aproveita a especulação dos períodos de alta temporada. Pronto, seu sustento e sossego estão garantidos!

Esse tem sido um modelo cada vez mais frequente de ocupação local. Pessoas motivadas por suas necessidades individuais sem nenhum envolvimento com as necessidades comunitárias. Assim, a reforma do cemitério levou quase dois anos e só aconteceu com o esforço de poucos. O banheiro público ficou mais de um ano para ser reformado com a dedicação de algumas poucas pessoas da comunidade. Concordo com você que isso deveria ser responsabilidade da prefeitura, mas você lembra o que falei sobre poder público ausente? Agora, com a necessidade de um banheiro que atenda aos protocolos sanitários, por causa da pandemia, as pessoas se mobilizaram para ajudar a terminá-lo a tempo de abrir o Capão. Ou seja, o interesse é na reabertura, não na necessidade de um banheiro que atenda os seus clientes (turistas) quando estão passeando na vila.

A ideia inicial desse texto era falar um pouco das muitas iniciativas coletivas existentes, mas talvez tentar imaginar o que seria do Capão sem elas seja mais “didático”. Queria te convidar a refletir sobre os impactos que sua atividade econômica causa no Vale e o quanto você se envolve para diminuir isso. Eu sei que é mais fácil e até racional dizer que estas são competências do poder público, mas enquanto tivermos estes representantes no poder executivo e legislativo municipal, não teremos soluções. E se o caminho for mesmo a Política (com P maiúsculo, por favor) o que temos feito para qualificar e elevar o debate? Já mudou seu título pra cá? Já conversou com os candidatos para saber quais as propostas para o município e para o Capão? Já observou o que alguns candidatos têm feito em plena pandemia? Ou está apenas preocupado em saber se ele(a) vai conseguir um exame para sua família, botar um poste na sua rua ou melhorar a estrada da sua casa?

Você pode estar se perguntando: o que fazer? Como impedir que essa lógica do interesse individual tome conta do nosso lugar e das nossas relações? Sabemos que o problema é global, pois trata-se do que os cientistas políticos chamam de Neoliberalismo. Essa lógica neoliberal avassaladora tem nos transformado em mercadorias, e segundo a reflexão de dois pensadores, Christian Laval e Pierre Dardot, a resposta possível é o “Comum”, aquilo que é inegociável. Para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade e um imaginário do “comum”, daquilo que vale por ser construído “por” e “para” todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável1. Assim, convido todes vocês a investirem recursos humanos, energéticos, temporais, econômicos e estruturais naquilo que é comum, que nos torna comunidade e que é inegociável. Que não vai resolver seu problema pessoal ou apenas te dar lucro, mas contribuir com uma sociedade que vive melhor.

1 https://outraspalavras.net/outrasmidias/contra-captura-neoliberal-a-revolucao-dos-comuns/

Melissa Zonzon
Melissa Zonzon
Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.
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O que seria do Vale do Capão sem os movimentos coletivos?

O que seria daqui sem as atividades artísticas? Onde você levaria seu filho(a) se não tivesse o Circo, as escolas infantis? O que os hóspedes da sua pousada fariam no sábado à noite na vila se não tivessem os artistas de rua e músicos?

Abrir ou Não abrir, Eis a questão!

Em agosto de 2020, em reunião com a comunidade do Vale do Capão, o secretário de saúde de Palmeiras anunciava que pretendia realizar a reabertura para visitação na segunda quinzena do mês seguinte, setembro.

Esse ano não vai ter Cariru!

Mês de setembro sempre foi aguardado aqui no Vale do Capão, aliás, acho que em toda Bahia. Setembro é mês de Cosme Damião ou dos Ibejis, e como manda a tradição, Carurus são ofertados aos familiares, amigos e vizinhos.
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