quarta-feira, 25 março, 2026

Entre o circo, o teatro e a escrita, artista investiga o corpo como território político e poético em Cavala, seu mais recente solo

Corpo, memória e escrita: a pesquisa cênica de Alice Cunha

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Corpo, memória e escrita: a pesquisa cênica de Alice Cunha

Entre o circo, o teatro e a escrita, artista investiga o corpo como território político e poético em Cavala, seu mais recente solo

Uma prática que atravessa linguagens
A trajetória de Alice Cunha se estrutura a partir de uma recusa em separar campos disciplinares. Multiartista, pesquisadora e educadora, sua prática opera na confluência entre circo, teatro, dança e escrita, entendendo essas linguagens menos como categorias estanques e mais como modos de pensar em ação. Radicada no Vale do Capão, a artista também orienta sua atuação por uma ética de descentralização, priorizando colaborações com outras mulheres e investindo em processos que deslocam o eixo tradicional de produção cultural. Nesse sentido, sua obra não se limita ao objeto cênico, mas se expande como prática situada, atravessada por contextos sociais, geográficos e políticos.

Do virtuosismo à enunciação do corpo
A investigação de Cunha ganha contornos mais definidos a partir de 2017, com A Mulher Mais Forte do Mundo. No trabalho, a artista tensiona convenções do circo ao abdicar do ilusionismo em favor da exposição da força real do corpo. O gesto, aparentemente simples, desloca o foco do virtuosismo técnico para uma reflexão sobre os regimes de visibilidade associados ao feminino e às noções de potência.

Em 2018, esse percurso se desdobra em Consolo — um solo de contação fêmino-circense, obra que consolida uma linguagem híbrida e explicita a articulação entre narrativa pessoal e dimensão coletiva. O trabalho amplia sua circulação e recebe reconhecimento nacional, incluindo o Prêmio Funarte de Circo, indicando a consolidação de uma pesquisa que já se anunciava como consistente e autoral.

Cavala: entre referência, método e experiência
Em Cavala (2026), sua criação mais recente, a artista aprofunda questões que atravessam sua trajetória, ao mesmo tempo em que incorpora novas camadas de investigação. A obra se constitui a partir de uma constelação de referências que inclui a literatura de Clarice Lispector, especialmente Seco Estudo de Cavalos, além de aportes teóricos como os de Christina Sharpe, autora de A beleza como método. A essas referências somam-se processos de observação direta do animal que dá nome ao trabalho, além de um método autoral desenvolvido pela artista ao longo de sua pesquisa de mestrado: o “corpo–memória–escrita poética”. Trata-se de um procedimento que articula experiências vividas no Sertão do São Francisco com narrativas de mulheres que enfrentam, em contextos diversos, os efeitos estruturais do patriarcado. Mais do que um repertório de influências, o que se delineia é uma metodologia de criação que opera por tradução: o vivido se converte em matéria cênica, não como representação direta, mas como reorganização sensível de experiências.

Processo, deslocamentos e materialidades
A construção de Cavala também evidencia desafios contemporâneos da criação colaborativa. Com uma equipe distribuída entre diferentes estados, parte significativa do processo ocorreu de forma remota, exigindo a mediação tecnológica como espaço de ensaio e experimentação. Esse contexto tenciona a noção tradicional de presença no fazer artístico, deslocando-a para regimes híbridos de colaboração. No plano corporal, o trabalho exigiu da artista um retorno intensivo ao treinamento físico, revelando a indissociabilidade entre preparação técnica e elaboração conceitual em sua prática. O corpo, aqui, não é apenas suporte, mas instância de pensamento, travessada por memória, disciplina e escuta.

Recepção e circulação
A recepção de Cavala aponta para sua capacidade de atravessar diferentes públicos. Em apresentações realizadas em Salvador, a obra reuniu tanto espectadores habituados ao circuito das artes quanto públicos não especializados, ampliando os modos de fruição e interpretação. No Vale do Capão, onde a artista reside, o trabalho produz ainda um efeito particular: a dissolução entre anonimato cotidiano e reconhecimento artístico. Esse deslocamento evidencia como a obra se inscreve não apenas em circuitos formais de exibição, mas também no tecido social do território, instaurando relações que extrapolam o espaço cênico.

Um solo como campo de investigação
Mais do que um formato cênico, o solo se apresenta, na prática de Alice Cunha, como um campo expandido de investigação. Nele, o corpo é simultaneamente arquivo, instrumento e discurso; a cena, por sua vez, torna-se um espaço de negociação entre subjetividade e coletividade. Em Cavala, essa abordagem se reafirma como um processo em curso, ainda em expansão, que não busca fechar significados, mas abrir percursos. Nesse sentido, a obra se posiciona menos como conclusão e mais como atravessamento — um território onde arte, vida e pesquisa se entrelaçam continuamente.

Gabriela Witencamps
Gabriela Witencamps
Gabriela witencamps, atriz e Professora de Teatro graduada na Escola de Teatro de La Plata, Buenos Aires, Argentina. Desde 2019 se especializa em jornalismo nas artes cênicas e íntegra o equipe editorial da revista digital " El Anzuelo, Educación e Investigación en Artes Escénicas" editada e publicada pela Universidade Nacional de Lá Plata.
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