Em meio às paisagens da Chapada Diamantina, a comunidade quilombola de Serra Negra, no município de Palmeiras, inicia uma nova etapa de valorização de seu território, de sua história e de seus saberes tradicionais. O projeto “Regeneração Etnoecológica do Quilombo de Serra Negra e requalificação de seu sítio arqueológico no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina” foi selecionado pelo 45º Edital do Fundo Ecos, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), entre as iniciativas apoiadas para atuação nos biomas Cerrado e Caatinga. A organização proponente é o Grupo Ambientalista de Palmeiras (GAP).
Mais do que uma proposta de recuperação ambiental, a iniciativa parte de uma perspectiva integrada sobre o território. A ideia de regeneração etnoecológica aproxima conservação da natureza, conhecimentos tradicionais, identidade quilombola, pesquisa científica e preservação do patrimônio arqueológico — dimensões que se encontram na história e no cotidiano da comunidade.
Um território de importância ambiental, cultural e histórica
Serra Negra é uma das comunidades quilombolas do município de Palmeiras. Documentos oficiais do Governo da Bahia identificam a comunidade entre os territórios quilombolas da região e também registram sua inserção no contexto ambiental e territorial da Chapada Diamantina.
A região possui ainda uma importante dimensão arqueológica. O município de Palmeiras abriga, entre seus patrimônios, o sítio arqueológico da Serra Negra, além de outros sítios, como Matão e Poço dos Impossíveis. O patrimônio arqueológico se soma ao conjunto de elementos naturais, históricos e culturais que caracterizam o município.
É justamente nesse cenário que o projeto pretende atuar: reconhecendo o território não apenas como espaço físico, mas como lugar de memória, pertencimento, produção de conhecimento e continuidade de modos de vida.
Uma equipe formada por diferentes saberes
As ações iniciais do projeto já reuniram parte da equipe responsável pela construção da iniciativa. Em publicação nas redes sociais, o GAP apresentou um grupo multidisciplinar formado por profissionais de diferentes áreas, entre elas ecologia, psicologia, agronomia, arqueologia, botânica, geografia, comunicação, artes, agrofloresta e ciências ambientais.
Entre os integrantes apresentados estão o coordenador-geral e autor do projeto, o ecologista e psicólogo Douglas Castro, e o coordenador de campo, técnico agrícola e artista Joas Brandão. A equipe conta ainda com consultores e facilitadores especializados em etnoecologia, arqueologia, botânica, geografia, agrofloresta e outras áreas relacionadas à proposta.

A diversidade de formações revela uma das características centrais da iniciativa: a construção de estratégias para o território a partir do diálogo entre diferentes conhecimentos, sem separar a dimensão ambiental da dimensão cultural e social.
Regenerar também é preservar conhecimentos
O conceito de etnoecologia ajuda a compreender essa proposta. Em vez de considerar natureza e sociedade como elementos separados, essa abordagem busca compreender as relações construídas entre comunidades e os ambientes onde vivem, incluindo conhecimentos, práticas, usos e formas de manejo desenvolvidas ao longo do tempo.
No caso de Serra Negra, essa perspectiva ganha uma dimensão especial por se tratar de uma comunidade quilombola inserida em uma região de grande relevância ambiental e histórica.
A valorização dos conhecimentos tradicionais também está alinhada às diretrizes do Fundo Ecos. Segundo o ISPN, os projetos selecionados no 45º edital buscam fortalecer povos e comunidades tradicionais, agricultura familiar e práticas produtivas sustentáveis, com destaque para conservação dos territórios, valorização cultural e dos saberes tradicionais.
O patrimônio arqueológico como parte da história do território
Outro eixo importante da iniciativa é a requalificação do sítio arqueológico de Serra Negra.
A presença desse patrimônio reforça a necessidade de olhar para o território também a partir de sua dimensão histórica. Vestígios arqueológicos representam registros materiais de diferentes momentos da ocupação humana e podem contribuir para ampliar a compreensão sobre as relações construídas com a paisagem ao longo do tempo.
Em Palmeiras, a relevância desse patrimônio já foi reconhecida por órgãos estaduais. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) destaca os sítios arqueológicos da Serra Negra entre os elementos que integram o patrimônio cultural do município.
Nesse contexto, a proposta de requalificação apresentada pelo projeto acrescenta uma perspectiva de valorização e cuidado com esse patrimônio, aproximando sua preservação das demais ações de fortalecimento do território.
Apoio para transformar ideias em ações
A seleção pelo Fundo Ecos representa uma importante oportunidade para a implementação da iniciativa. O projeto integra os 26 selecionados no 45º edital do Fundo Ecos, lançado para apoiar organizações da sociedade civil e organizações de base comunitária nos biomas Cerrado e Caatinga.
A chamada integra a Oitava Fase Operacional do Small Grants Programme (SGP) no Brasil, com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No edital, os projetos da categoria de pequenos projetos recebem apoio de até R$ 150 mil.
As organizações selecionadas participam de oficinas iniciais de orientação e contam com acompanhamento da equipe do Fundo Ecos durante a execução das ações, que poderá ocorrer por até 18 meses.
Um projeto que olha para o futuro sem abandonar as raízes
A iniciativa chega a Serra Negra em um momento em que a valorização dos territórios quilombolas e de seus modos de vida ganha cada vez mais espaço nas discussões sobre conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
Em 2025, por exemplo, a comunidade esteve entre as localidades quilombolas atendidas pela Caravana de Direitos Humanos realizada em Palmeiras, ação que alcançou comunidades rurais e quilombolas do município.
O novo projeto amplia esse cenário ao propor uma atuação que articula natureza, cultura, memória e conhecimento.
Seu maior potencial está justamente nessa integração. Regenerar o território, nesse caso, não significa apenas recuperar áreas naturais. Significa também reconhecer as pessoas que historicamente construíram relações com esse espaço, valorizar seus conhecimentos, proteger os registros de sua história e criar condições para que esses saberes continuem vivos.
Em Serra Negra, natureza e memória passam, assim, a ser compreendidas como partes de uma mesma paisagem. E é a partir desse encontro entre passado, presente e futuro que o projeto pretende construir novos caminhos para a comunidade e para a conservação de seu território.









