Um encontro entre diferentes linguagens da dança está movimentando jovens do Vale do Capão. O Diamantina Crew reúne participantes do grupo de breaking, conduzido pelo professor Diego Besse, e da dança acrobática, orientada pela professora Léa Bianchini, em uma experiência que nasceu para uma apresentação pontual e acabou revelando o potencial de um projeto maior.
A iniciativa surgiu a partir da celebração do Dia da Dança, realizada todos os anos no Circo do Capão pelo Coletivo de Dança, um coletivo autogerido que reúne pessoas de diferentes horizontes e linguagens, como dança contemporânea, butô, balé, dança do ventre, danças ciganas, danças populares e breaking.
Em 2026, o tema escolhido para o espetáculo coletivo foi “feminino e masculino”. Diego e Léa, que já desenvolviam trabalhos separados, perceberam que poderiam experimentar o tema de outra maneira.
“Poderíamos ter trabalhado o tema separadamente, mas achamos muito mais interessante experimentar esse encontro entre os dois grupos”, conta Léa.
Havia ainda uma coincidência que facilitou a experiência: nove jovens de cada grupo demonstraram interesse em participar. Assim, 18 participantes foram reunidos em uma única criação. Quando souberam que os grupos seriam unidos, a reação foi de entusiasmo.
O encontro entre diferentes linguagens
O processo de criação começou com uma proposta simples: formar duplas, sempre reunindo um menino e uma menina, para que os participantes experimentassem diretamente a troca entre diferentes experiências e formas de se movimentar.
Como havia pouco tempo para preparar a apresentação, o trabalho foi intenso. Surgiram desafios relacionados à timidez, especialmente entre jovens que ainda não se conheciam bem, além da necessidade de equilibrar energia e concentração.
Com o passar dos encontros, porém, a convivência começou a produzir outros resultados.
Segundo Léa, foi bonito observar a delicadeza, a paciência e a curiosidade que surgiram entre os participantes. As próprias diferenças nas formas de trabalho dos professores também se tornaram parte importante da experiência, permitindo que os jovens experimentassem outras maneiras de aprender, criar e se movimentar.
O que começou como um desafio entre os grupos também foi se transformando. A chamada “competição saudável” servia inicialmente como estímulo para que os participantes se desafiassem.
“Se os meninos conseguem fazer isso, a gente também consegue!”, era uma das provocações utilizadas durante o processo.
Aos poucos, porém, a competição deu lugar à colaboração.
A flexibilidade e a acrobacia das meninas passaram a dialogar com a potência e o impulso característicos do breaking. Quando começaram a trabalhar com grupos maiores, os próprios jovens passaram a sugerir movimentos, ensinar uns aos outros e reconhecer as habilidades dos colegas.
Para os responsáveis pelo projeto, essa transformação é um dos principais valores do Diamantina Crew: mostrar, na prática, que sair das próprias “bolhas” pode ampliar aquilo que cada pessoa é capaz de criar junto com o outro.
De uma apresentação a um projeto
O que inicialmente nasceu para uma apresentação do Dia da Dança acabou despertando interesse suficiente para ganhar continuidade.
Depois do espetáculo, o projeto recebeu o apoio financeiro de um doador anônimo, que possibilitou a realização de um novo ciclo de atividades e a produção de dois videoclipes.
Durante um mês, os jovens participaram gratuitamente de três horas semanais de atividades. Na primeira parte dos encontros, os papéis eram invertidos: as meninas faziam aulas de breaking com Diego, enquanto os meninos experimentavam a dança acrobática com Léa. Nas duas horas seguintes, todos trabalhavam juntos na criação, com a participação também do professor Adam.
O processo contou ainda com a colaboração de diferentes pessoas da comunidade. João e Adam participaram da captação das imagens, João também realizou a edição dos vídeos, enquanto Nea, esposa de João, colaborou voluntariamente na produção dos looks.

Os espaços utilizados para as atividades, Lothlorien, Circo do Capão e Recíproca, também foram cedidos gratuitamente.
Ao final desse primeiro ciclo, foram gravados dois videoclipes antes do início do recesso de João.
A experiência, no entanto, também evidenciou um dos desafios enfrentados por iniciativas culturais independentes: a necessidade de encontrar recursos para garantir sua continuidade.
Atualmente, o Diamantina Crew não conta com financiamento para manter atividades regulares.
O grupo cresceu
Mesmo assim, o interesse demonstrado pelos jovens e suas famílias mostrou aos responsáveis que existe espaço para que o projeto continue.
A primeira apresentação contou com 18 jovens. Na gravação do videoclipe, o número chegou a 27 participantes. Desde então, outros jovens também demonstraram interesse em fazer parte do grupo.
Para a próxima etapa, entretanto, a decisão foi manter os participantes que já haviam passado pelo processo de criação e pelas aulas que deram origem aos videoclipes.
Por enquanto, o grupo se reúne durante mais um mês para preparar uma apresentação para o Vale que Dança. Paralelamente, os responsáveis avaliam a possibilidade de manter futuramente as atividades por meio de contribuições das próprias famílias.
No futuro, o desejo é conseguir um novo financiamento ou edital que permita dar continuidade ao Diamantina Crew e, principalmente, ampliar o acesso para mais jovens.
Mais do que aproximar duas modalidades de dança, o projeto parece ter encontrado justamente na diferença sua principal força. Meninos e meninas que começaram experimentando movimentos uns dos outros passaram a se observar, ensinar, incentivar e criar juntos.
Um encontro que nasceu para ocupar o palco por alguns minutos acabou abrindo espaço para algo maior: uma experiência de criação coletiva construída a muitas mãos, dentro e fora da dança.








