segunda-feira, 8 agosto, 2022

Lea

Lea

Lea me apresenta o bolo de laranja .

Pensei que fosse de aipim , e me decepciono .

Mas do jeito que ela segura o vidro ( com tanta força ) imagino a firmeza do seu povo .

Quando olho para ela vejo ancestralidade , e uma senhora que lhe acompanha .

Pergunto de onde vem essa raiz … , e ela responde :

  • Moro com minha avó Dona Lourdes , de 82 anos…

Lea desconfia de minhas perguntas , está cansada e trabalha com afinco .

Mulher de múltiplas habilidades e resistência .

Seu sorriso é sério , sua tez brilha …

  • Você sabe costurar cozinhar e fazer outras coisas ?

Ela me diz incisiva :

-Pense numa pessoa que não sabe fazer nada ..!?

Não acredito em sua resposta .

Para chegar até aqui deu muito trabalho …

Lea mói o pó de café e liga a máquina !

Ela é magra . Um feixe de músculos . Enérgica e silenciosa…

Não posso deixar de notá-la , sua cor reluz na Aurora…

Sim… Eu posso ver …

Que mesmo não sendo ela , ou sendo outra , o labor faz parte de sua vida , ainda hoje …

É como um fardo que se perpetua !

Parcos e exíguos rendimentos que se multiplicam , pagam contas , criam filhos , pequenos milagres cotidianos .

Agora ouço uma gargalhada ao fundo.

É grave e não parece dela .

Então digo :

  • Sua avó sorri com sua boca !

Então ela olha me inquirindo , e não desvia a fronte !

Peço desculpas …

Tento explicar :

  • As vezes não me contenho ! Sou escritor …

Quando espero uma reprimenda , ela responde :

  • Que bom !

Agora Lea entende e aceita , e relaxa …

Pergunto em pensamento :

Quanto tempo foi necessário para que isso acontecesse ?

Para que o povo enfim descansasse dos rigores ?

Não há resposta audível…

Mas eu li nos livros que foram 380 anos…

Mesmo ainda assim hoje não descansam .

Parece que sempre há algo a ser feito , uma pedra que se carrega , uma tarefa inconclusa…

O uso do cachimbo deixa a boca torta !

A força do hábito cria imagens indestrutíveis .

E muralhas !

Que protegem e separam !

Agora os muros intransponíveis se afastam …

Tijolo por tijolo !

Eu e Lea vamos caminhando …

Em direção ao Firmamento .

Lá eu conto histórias…

E ela repousa…à sombra de um olmo…

Como se nada acontecesse…

Mas ela não perde a pose , limpa com um pano a mesa .

E volta para o balcão …

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Flavio Fucs
Flavio Fucs
"Poeta sou cumpro meu Fado . Como o dum santo ou dum louco . Só posso dar demais ou muito pouco . Que é tudo quando tenho ." José Régio
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