No Vale do Capão, o turismo também pode ser uma oportunidade de conhecer as histórias, os conhecimentos e os modos de vida de quem construiu esse lugar. Na Morada do Miuan, a experiência começa entre os pés de café e termina ao redor da mesa, com uma xícara da bebida preparada pelos próprios participantes. No caminho, cada etapa revela um pouco da agricultura familiar e da memória de uma família nativa do Vale.
Conduzida por Mara Santos, a vivência convida moradores e visitantes a conhecerem de perto o cultivo do café, participarem de seu beneficiamento e compartilharem histórias que atravessam gerações.

Mais do que uma atividade turística, é uma oportunidade de compreender o território a partir de quem vive nele, reconhecendo a agricultura como parte importante da história e da identidade do Vale do Capão.
Da terra à xícara: uma experiência de perto
A vivência percorre diferentes etapas da produção do café, começando pela visita aos cafezais da propriedade, onde há pés com aproximadamente 30 a 40 anos de idade.
Durante o percurso, Mara apresenta as características dos grãos, incluindo os frutos vermelhos e amarelos, e compartilha conhecimentos sobre o cultivo. Os participantes acompanham e colocam a mão na massa: colhem os frutos, conhecem os processos de secagem e pilagem, participam da torra e, depois, da moagem.
Cada etapa aproxima o visitante de um processo que muitas vezes passa despercebido por quem consome café no cotidiano. Antes de chegar à xícara, a bebida envolve tempo, trabalho, conhecimento e uma relação direta com a terra.

Durante a vivência, Dona Juceli, mãe de Mara e anfitriã da família, também tem um papel especial. É ela quem realiza a torra dos grãos na tradicional bola de café, compartilhando um saber construído ao longo da vida e transmitido entre gerações.

Dona Juceli também está presente no cotidiano do Vale do Capão por meio da Cantina Sabor da Trilha, seu estabelecimento no bairro dos Brancos. Sua participação revela como a agricultura, a culinária e os pequenos negócios familiares se entrelaçam na história e na vida comunitária do território.
Na Morada do Miuan, o aprendizado acontece de maneira prática e acolhedora. Ao longo de aproximadamente três a quatro horas, a conversa acompanha o fazer. É possível observar, tocar, experimentar e ouvir, construindo uma experiência que reúne conhecimento técnico, memória familiar e troca de saberes.
Uma história que continua sendo cultivada
A Morada do Miuan é uma propriedade de agricultura familiar conduzida por uma família nativa do Vale do Capão. Mara é filha de Juceli e Jucelino e faz parte de uma história profundamente ligada à terra e à produção de alimentos.
Sua trajetória também passa pela universidade. Depois de sair do Vale para estudar Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da natureza com ênfase em agroecologia, Mara retornou trazendo conhecimentos acadêmicos que hoje dialogam com aquilo que já fazia parte de sua vivência familiar.

Essa relação entre conhecimento científico e saberes construídos na prática é um dos aspectos mais ricos da experiência. A universidade não aparece como substituta do conhecimento transmitido entre gerações, mas como uma possibilidade de aprofundá-lo, questioná-lo e experimentá-lo de novas maneiras.

Além do café, Mara também desenvolveu experiências com o cacau, ampliando as possibilidades de investigação e aprendizado a partir da produção agrícola.


Ao compartilhar essas práticas com o público, ela transforma parte de seu cotidiano em uma oportunidade de educação, valorização cultural e geração de renda. É uma forma de manter vivos os conhecimentos locais e, ao mesmo tempo, criar novas possibilidades para a agricultura familiar.
O turismo que conta a história do lugar
A história do Vale do Capão é marcada por diferentes momentos, entre eles o garimpo, a agricultura e, mais recentemente, a expansão do turismo. Essas atividades fazem parte das transformações do território e ajudam a compreender como a comunidade chegou ao presente.
Com o aumento do fluxo de visitantes, torna-se ainda mais importante criar oportunidades para que essa história seja conhecida e transmitida. O Vale não se resume às suas paisagens, trilhas e cachoeiras. Sua identidade também está nas famílias que vivem aqui, nos cultivos, nos conhecimentos tradicionais e nas experiências que atravessam gerações.
É nesse contexto que iniciativas como a da Morada do Miuan ganham relevância. Em vez de apenas visitar um destino, o participante tem a oportunidade de conhecer uma parte de sua história por meio de quem a vivencia diariamente.
A proposta dialoga com o Turismo de Base Comunitária, modalidade que valoriza o protagonismo das comunidades locais, a troca de conhecimentos, a cultura e a geração de renda associada à valorização do território. Na agricultura familiar, esse modelo pode aproximar visitantes das práticas produtivas e dos modos de vida locais, contribuindo para um turismo mais consciente e conectado à realidade de cada lugar.
A experiência na Morada do Miuan apresenta esse potencial de maneira concreta: o visitante conhece o café, mas também conhece as pessoas, a história e o trabalho que existem por trás dele.
O sabor de compartilhar
Depois de acompanhar o processo de produção, chega o momento de provar o resultado. O café preparado durante a vivência é servido junto a quitutes feitos na propriedade, em uma mesa que também expressa o cuidado com os ingredientes e a produção local.

Pão de queijo, bolo caseiro, pão artesanal e tomates confitados da própria horta compõem esse momento de convivência. O encontro termina ao redor da mesa, entre conversas, sabores e a satisfação de experimentar algo que os próprios participantes ajudaram a produzir.
A degustação não é apenas o encerramento de uma atividade. É parte da experiência de reconhecer o valor do alimento, do trabalho envolvido em sua produção e das relações que se constroem em torno dele.
Uma experiência que merece ganhar espaço
O trabalho de Mara Santos reúne elementos importantes para pensar o futuro do turismo no Vale do Capão: valorização da agricultura familiar, preservação de conhecimentos locais, educação ambiental, fortalecimento da identidade cultural e criação de oportunidades de renda.
Ao desenvolver a vivência, Mara abre as portas de uma história familiar e transforma conhecimentos cotidianos em uma experiência que pode ser compartilhada com diferentes públicos. A iniciativa também aponta para possibilidades de ampliação, com a realização mais frequente dos encontros e o alcance de mais pessoas.
Para que projetos como esse se fortaleçam, é importante reconhecer seu valor não apenas como atrativos turísticos, mas como iniciativas que contribuem para manter viva a relação entre comunidade, cultura e território. A ampliação dessas experiências pode criar novas oportunidades para famílias agricultoras e diversificar a oferta turística do Vale, aproximando visitantes de uma realidade que vai muito além dos roteiros mais conhecidos.
O Portal Vale do Capão tem como propósito apresentar a diversidade desse território, valorizando suas pessoas, histórias e iniciativas. Essa perspectiva também esteve presente na coluna Vozes do Vale, espaço dedicado à expressão de quem vive e constrói a comunidade.
Dar visibilidade a experiências como a da Morada do Miuan é parte desse compromisso: mostrar um Vale plural, com histórias que merecem ser conhecidas, saberes que merecem ser compartilhados e iniciativas que podem inspirar outros caminhos.
Conhecer o Vale do Capão também é conhecer quem o cultiva, quem preserva suas memórias e quem encontra novas maneiras de compartilhar essa história. Na Morada do Miuan, tudo isso começa entre os cafezais e continua em uma boa prosa.








