segunda-feira, 15 dezembro, 2025

Professora de Caeté-Açu apresenta práticas de referência inspiradas em conteúdos da Formação Continuada

ConteúdoNotíciasProfessora de Caeté-Açu apresenta práticas de referência inspiradas em conteúdos da Formação...

Professora de Caeté-Açu apresenta práticas de referência inspiradas em conteúdos da Formação Continuada

A trilha proposta pela Formação Continuada Territorial da Secretaria de Educação do Estado da Bahia leva sempre ao mesmo destino. Em 417 cidades diferentes, este caminho contorna obstáculos, busca atalhos, diminui o ritmo, quando necessário, mas sempre avança em direção à evolução das aprendizagens dos estudantes. Com o leme controlado pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, por meio do Instituto Anísio Teixeira (IAT), muitos são os comandantes que ‘tocam o barco’ em um regime colaborativo, essencial para o desenvolvimento de um processo educacional eficaz. 

Coordenadores pedagógicos, gestores escolares e membros das equipes técnicas das secretarias municipais e Núcleos Territoriais de Educação (NTEs) pulverizam a formação recebida no IAT, a fim de que os conteúdos e discussões cheguem até as salas de aula, mesmo em lugares remotos. Além disso, garantem que o dia a dia nestas salas seja o conteúdo principal da formação, através da tematização da prática e, especialmente, do intercâmbio de experiências.

No distrito de Caeté-Açu, zona rural do município de Palmeiras, localizado no NTE 3 (Chapada Diamantina), a professora Enilzete Mendes e a coordenadora Rosana Mercês, da Escola Municipal de Primeiro Grau de Caeté-Açú, dão exemplo de como percorrer esse caminho de forma a impactar verdadeiramente a aprendizagem e a vida dos estudantes. A coordenadora faz parte da formação continuada desde o início, em 2019, sempre fazendo a ponte entre a formação e os professores. “Ao passo que aprendi e expandi meus saberes, eu os repassei para os professores em meu fazer pedagógico, nos planejamentos coletivos e formativos. Todos os planejamentos são formativos e de troca de experiências, exitosas ou não”, conta Rosana.

A coordenadora destaca um dos aspectos de maior contribuição da formação: “A compreensão de que é no contexto do meu trabalho, que é a mediação entre as diferentes instâncias (gestão, educadores, educandos, famílias, comunidade), que devo, como profissional, exercer a função de articulação, formação e transformação da realidade”. Rosana faz parte da turma da formadora Maria Joselma Noronha que, recentemente, trabalhou a leitura e produção textual sob diversos aspectos, como a diversidade cultural e de linguagem, as formas de trabalho no contexto da realidade local e comunitária, o uso da leitura e escrita em práticas diferenciadas do cotidiano, além de reforçar o entendimento de que a leitura é um compromisso interdisciplinar.

Todo esse conteúdo ecoou no coração da professora Enilzete que, ao longo dos seus mais de 20 anos de profissão,desenvolveu um olhar atencioso e uma prática voltada para a transformação social. Filha de um agricultor autodidata e de uma professora disfarçada de mãe, sempre ouviu seu pai lhe dizer (e aos seus outros 13 irmãos) que o maior bem que um homem pode deixar aos filhos é a educação. A mãe, não menos entusiasta dos processos educativos, foi a responsável por alfabetizá-la, escrevendo atrás da porta da cozinha com carvão os nomes das frutas que eles tinham no quintal. Jabuticaba, laranja, banana, jaca e tantas outras passaram a ser parte não apenas da sua realidade de subsistência, mas também foram as primeiras responsáveis por descortinar as janelas – ou portas – do conhecimento. 

“Eu ficava encantada com minha mãe escrevendo atrás da porta da cozinha, achava aquilo muito bonito. Pedi para ela me ensinar a ler e escrever. Minha brincadeira preferida era ser professora, me imaginava dando aula para uma sala cheia. Passei a riscar, também com carvão, a porta de um dos quartos da casa, era o meu quadro”. O problema, na época, era que, no distrito, também conhecido desde esse tempo como Vale do Capão, não tinha escola. A escola mais próxima ficava na sede do município, a 22km. Nem isso foi empecilho para que Enilzete começasse os estudos. Sabendo da necessidade de ter uma escola na comunidade, seu pai escolheu um local e providenciou que a prefeitura comprasse o terreno para iniciar a construção da escola. 

Ela se formou professora e o compromisso que seus pais fizeram com a sua educação, mais tarde, seria o mesmo que, hoje, ela tem com a educação de todos os estudantes que passam pelas suas aulas. “A maneira mais eficiente de escravizar o povo é negar a ele o direito à educação”, testemunha. Um dos maiores incentivos para se dedicar à educação como profissão foi o da sua professora de língua portuguesa, Cybele Amado, hoje diretora-geral do IAT. Mais tarde, se encontrariam novamente, ela professora e Cybele coordenadora na mesma escola. 

Assim, nascida, criada e lecionando na comunidade, Enilzete conhece bem a realidade local. Mas a percepção de que os alunos não tinham esse conhecimento foi o ponto de partida para que ela iniciasse uma série de projetos que os aproximasse das suas raízes culturais e históricas. “Percebi que meus alunos não conheciam a história local. Nas leituras em livros e sites, eles acreditavam que tudo que escreviam sobre o Capão era verdade.”

Concomitantemente, a formação trabalhava a leitura em todas as áreas do conhecimento. “Esse trabalho me fez refletir muito sobre a minha prática. Tem muito professor que acredita que ler e escrever é responsabilidade apenas de língua portuguesa, mas não é. Estudei como vivenciar de verdade a leitura em todas as áreas e através dessa leitura fomos descobrindo muita coisa, como rendeu!”. Nas aulas, mergulharam em diferentes fontes de informação e puderam analisar livros, notícias, histórias e até teses de mestrado. Para surpresa de todos, muito do que se contava sobre a comunidade não era verdade. 

A professora então trouxe para a discussão as origens indígenas, africanas, das comunidades quilombolas que viveram no entorno e até a influência das culturas estrangeiras presentes na localidade. “O objetivo número um era conhecer a própria história para reconhecer a contribuição de diferentes povos na construção sócio-histórica do lugar. Língua portuguesa para mim não é só ensinar gramática, é trazer o mundo para a sala de aula e analisá-lo”. 

Até que um dia, um aluno a questionou sobre a representação do Nordeste observada em diversas pesquisas: “Por que só aparece a carcaça de um boi morto? É sempre a seca e nunca a Chapada”. Foi então que ela se deu conta de que o livro didático estava alheio à realidade local e, mais uma vez, saiu da zona de conforto. “Quando um aluno me fala um negócio desses, eu preciso mudar, não posso ficar no livro didático. O material didático também pode ter a realidade deles. Aí eu fui criar, na maior cara de pau”. 

A professora passou a criar seu próprio material didático, incluindo apostilas e exercícios que eram enviados para os estudantes. Textos instrucionais com receitas originais da localidade, sequências didáticas estudando folclore com base nas lendas regionais, além de ilustrações e imagens do distrito. “Pense na cara desses meninos quando receberam esse material. Felicidade pura. As famílias tomaram um susto e eu também me assustei pelo tamanho da plateia. As pessoas comentando na rua e os pais assistindo às aulas junto com os alunos. Teve um pai, que é guia de turismo, que passou a assistir às aulas para embasar o seu trabalho, assim poderia explicar aos turistas os significados dos nomes dos atrativos e a história da comunidade.” 

Outras iniciativas também “mexeram” com a comunidade. Estudando slogans, a professora propôs que os alunos criassem pensando no comércio local. Foi um verdadeiro sucesso, os pontos comerciais adotaram os slogans produzidos e hoje muitos aguardam a segunda edição da atividade. Os estudantes também ilustraram contos de um autor local, cujo próximo livro será novamente ilustrado pelos meninos e meninas da escola.

Neste “mergulho profundo na história”, como ela gosta de falar, outro aspecto chama atenção. Segundo a professora, era muito comum os alunos copiarem o que liam na internet para responder às pesquisas e usarem como ilustração fotos que encontravam na rede, sem se atentar aos direitos autorais. Ela passou então a trabalhar com as mídias digitais, explorando a diferença entre presença digital e cidadania digital. “Hoje pensam 10 milhões de vezes antes de pegar imagem na internet e copiar, existe lei, alguém que fotografou, direitos autorais. É papel do professor abrir os olhos dos meninos sobre a internet.”

Nesta parte do trabalho, empatia e formas de se posicionar em redes sociais também foram tratados. “Trabalhei adjetivos, como o uso de palavras bem ditas e malditas, o poder que o adjetivo tem. Um cidadão digital não sai por aí em redes sociais escrevendo palavras malditas, ele se coloca no lugar do outro, tem empatia. Além disso, com a constante análise dos textos, eles formam uma consciência crítica capaz de discernir sobre o que lêem num mundo em que temos muitos produtores de conteúdo.” 

A professora, que também criou uma biblioteca virtual com livros baixados de forma legal na internet, conta que já percebe uma diferença significativa na escrita dos alunos e na sua capacidade argumentativa.  “Quando eles estudam o que está próximo, eles conseguem linkar com o que está mais distante, quando vêem um texto de outra realidade, eles já conseguem analisar. Partimos do território como identidade: o local com o global. Esse global não existiria sem mim, eu também faço parte.”

Para a coordenadora Rosana, esse trabalho demonstra amor e respeito pela comunidade. “Ele serve de referência para professores que atuam em outras disciplinas. A professora demonstra o amor e a dedicação do educador popular (em referência a Paulo Freire) que quer que a comunidade se conscientize de sua força, se aproprie desses saberes e em retorno fortaleça a sua identidade local”.

Enilzete faz suas previsões: “Imagina como eles estarão daqui a uns três anos!”, fazendo referência ao desenvolvimento dos alunos. O seu fazer tem referências no passado, na alfabetização com carvão e no legado do pai. No exercício da simplicidade e paciência reside a força do seu fazer. Assim como a mãe, potencializa os recursos que tem para provocar a evolução das aprendizagens dos meninos e meninas de Caeté-Açu, praticando as referências de Paulo Freire e fazendo-nos crer que a educação é, de fato, um ato de coragem e, sobretudo, de amor.

Texto enviado Ananda Azevedo

Portal Vale do Capão
Portal Vale do Capão
A vitrine virtual do Vale do Capão! Apoie o Portal fazendo uma doação de qualquer valor via PIX. Chave (CNPJ): 43518009000100
- anúncio patrocinado -
- anúncio patrocinado -
Morro Branco_banner
Um lugar para estar...
Morro Branco_banner
Um lugar para amar...
Morro Branco_banner
Um lugar para acreditar...

Relacionado

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Seu comentário:
Nome

Atenção! Comentários ofensivos, palavras de baixo calão ou que ofendam a conduta, moral e ética profissional serão excluídos. Agradecemos a compreensão.
- anúncio patrocinado -spot_img

Veja Também

- anúncio patrocinado -spot_img

No Vale do Capão

- anúncio patrocinado -spot_img
- anúncio patrocinado -

- em destaque -

Políticas de Privacidade
Portal Vale do Capão

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência possível para o usuário. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar a nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Você pode ajustar todas as configurações de cookies navegando pelas guias no lado esquerdo.

Cookies estritamente necessários

Cookies estritamente necessários devem estar sempre ativados para que possamos salvar suas preferências para configurações de cookies.