sábado, 3 outubro, 2026

Mulher Pássara: um voo entre memória, circo e ancestralidade

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Mulher Pássara: um voo entre memória, circo e ancestralidade

A artista multidisciplinar Carol Yanina Condori estreou “Mulher Pássaro”, seu primeiro espetáculo solo, no Circo do Vale do Capão (BA). A obra reúne circo, teatro, dança, performance e música ao vivo em uma criação que atravessa memória, identidade e ancestralidade, transformando a experiência pessoal da artista em uma narrativa cênica sensível e potente. Nascida em Buenos Aires, Argentina, filha de pais oriundos do norte do país, com raízes em Salta e Tucumán, Carol construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre diferentes linguagens artísticas. Atriz, circense, performer e bailarina, iniciou seu percurso aos 15 anos, estudando teatro. Desde cedo ouviu que viver da arte seria impossível, mas transformou essa ideia em combustível para uma formação sólida e uma pesquisa artística contínua. Estudou teatro com Gustavo Pardi, Alejandra Mistral e Andrés Sacchi, e iniciou sua formação circense na acrobacia aérea em tecido com Julieta Movia. Grande parte de sua pesquisa, no entanto, foi construída de forma independente, alimentada por viagens, festivais e pela experiência da arte de rua — espaços que ampliaram sua visão sobre o fazer artístico. Há quatro anos, vive no Vale do Capão, onde atua como professora no Circo do Capão .

Foi nesse território, cercado pela natureza e por uma intensa efervescência cultural, que amadureceu o desejo de criar seu primeiro solo. A ideia de Mulher Pássara surgiu após uma residência circense realizada no Rio de Janeiro, em 2024. O encontro com artistas de diferentes áreas despertou a confiança necessária para iniciar uma criação autoral. Pouco depois, durante uma sessão fotográfica inspirada pela atmosfera do Capão, nasceu a personagem que daria origem ao espetáculo.

Ao longo de cerca de um ano e meio, Carol desenvolveu uma dramaturgia inspirada em sua história familiar, na ancestralidade e na relação com o território latino-americano. Seu desejo foi construir uma obra híbrida, na qual teatro, dança, circo e música coexistem sem hierarquias, refletindo sua própria forma de compreender a arte.

Um processo de criação entre técnica e sensibilidade

Os ensaios começaram em agosto de 2025, logo após uma viagem à Argentina para reencontrar sua família. O retorno às origens fortaleceu a pesquisa e deu novos contornos à criação.

Nos primeiros meses, o espetáculo contou com duas musicistas executando tambor e charango ao vivo, trazendo sonoridades andinas e reforçando a ideia de que “todos somos território”. Ao longo do processo, Carol utilizou registros em vídeo dos ensaios como ferramenta constante de investigação sobre movimento, presença e composição. Em seguida, participou do curso de recriação de espetáculos conduzido pelo diretor argentino Gerardo Hochman, aprofundando aspectos da dramaturgia, composição cênica e refinamento da montagem. A versão final reúne Carol Yanina em cena ao lado da musicista chilena Paula Aldunate, cuja pesquisa sobre música andina amplia o universo sonoro do espetáculo. O charango, presente ao vivo na apresentação, torna-se símbolo da memória cultural que atravessa a obra. Os ensaios aconteceram entre o estúdio Luz Diamantina e o Circo do Vale do Capão. Paralelamente, Carol desenvolveu seu trabalho vocal com Raquel Roriz. A escolha de incluir o idioma aymara na obra nasce de uma investigação pessoal da artista sobre suas raízes familiares. Carol descobriu que sua tatarabuela era oriunda de Jujuy, no norte da Argentina — província fronteiriça com a Bolívia — assim como seu próprio sobrenome.

A partir dessa conexão, sentiu a necessidade de incorporar um idioma andino e indígena da região altiplânica, pertencente ao território compartilhado entre norte da Argentina, Chile, Bolívia e Peru, como forma de manter viva uma língua ancestral vinculada a seus antepassados.

A técnica capilar — uma das especialidades da artista — ocupa lugar central na encenação. Integrada ao teatro e à dança, deixa de ser apenas demonstração circense para se tornar linguagem poética, capaz de expressar força, vulnerabilidade e pertencimento. Mais do que um espetáculo de circo, Mulher Pássara é um convite para atravessar paisagens internas e coletivas, onde corpo, memória e ancestralidade se encontram. Em sua primeira criação solo, Carol Yanina reafirma uma pesquisa artística que dissolve fronteiras entre linguagens e transforma a cena em um território de identidade, afeto e liberdade.

O espetáculo terá nova apresentação no próximo domingo, 28 de junho no Circo do Capão.

Gabriela Witencamps
Gabriela Witencamps
Gabriela witencamps, atriz e Professora de Teatro graduada na Escola de Teatro de La Plata, Buenos Aires, Argentina. Desde 2019 se especializa em jornalismo nas artes cênicas e íntegra o equipe editorial da revista digital " El Anzuelo, Educación e Investigación en Artes Escénicas" editada e publicada pela Universidade Nacional de Lá Plata.
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