segunda-feira, 31 agosto, 2026

Com a chegada do período de estiagem, histórico de grandes incêndios na região reforça a importância da prevenção e da atuação das brigadas voluntárias

O fogo que a Chapada não esquece: por que o Vale do Capão permanece vulnerável aos incêndios

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O fogo que a Chapada não esquece: por que o Vale do Capão permanece vulnerável aos incêndios

Com a chegada do período de estiagem, histórico de grandes incêndios na região reforça a importância da prevenção e da atuação das brigadas voluntárias

A chegada dos meses mais secos do ano acende um alerta conhecido por quem vive no Vale do Capão. Entre períodos de estiagem, baixa umidade, ventos fortes e vegetação mais seca, a região volta a entrar em uma época historicamente marcada pela ocorrência de incêndios florestais.

O município de Palmeiras, onde está localizado o distrito de Caeté-Açu, apresenta registros expressivos de ocorrências de incêndios dentro e no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Um estudo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), baseado em registros de ocorrências entre 2010 e 2014, apontou Palmeiras como o município com maior número de ocorrências dentro do perímetro do Parque naquele período.

A vulnerabilidade do Vale do Capão também está relacionada às características do território. O relevo acidentado e a presença de áreas de vegetação densa podem dificultar o acesso das equipes de combate em determinados pontos. Ao mesmo tempo, a região é um dos principais destinos turísticos da Chapada Diamantina, recebendo visitantes durante todo o ano.

É nesse cenário que a prevenção e a atuação das brigadas voluntárias ganham importância ainda maior.

Um problema que se repete

O histórico das últimas décadas mostra que os grandes incêndios não são episódios isolados no território.

Em outubro de 2023, a Serra do Candombá, no Vale do Capão, foi atingida por um incêndio que mobilizou bombeiros militares, brigadistas do ICMBio e voluntários. O fogo foi controlado na noite de 14 de outubro, mas as equipes permaneceram na região realizando o rescaldo e o monitoramento da área.

Segundo o Corpo de Bombeiros, a atuação envolveu equipes da Base Chapada, enquanto brigadistas do ICMBio e voluntários da região também participaram do combate.

O episódio foi acompanhado pela imprensa estadual e voltou a chamar atenção para a recorrência dos incêndios na região do Vale do Capão.

Leia a matéria publicada pelo iBahia: Incêndio na Serra do Candombá, Vale do Capão, é controlado.

Leia a matéria do iBahia

Um ano antes, em outubro de 2022, outro incêndio havia atingido a Serra do Candombá. Na ocasião, moradores relataram o avanço das chamas pela área do Parque Nacional, enquanto equipes do ICMBio atuavam para controlar o fogo.

O episódio também foi noticiado pelo G1, em reportagem que registrou a atuação de agentes do ICMBio no combate ao foco.

Leia a matéria anterior do G1: Incêndio atinge serra no Vale do Capão; agentes do ICMBio atuam para extinguir foco.

2024: dois focos simultâneos no Vale

No final de dezembro de 2023 e início de janeiro de 2024, o Vale do Capão voltou a enfrentar uma situação de grandes proporções.

Dois focos de incêndio atingiram simultaneamente áreas do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Um deles estava próximo à região do Parque do Boqueirão, enquanto outro atingia a área da trilha da Cachoeira da Purificação.

Nos primeiros dias de janeiro, mais de mil hectares de vegetação já haviam sido atingidos, segundo informações divulgadas na época. O fogo chegou a permanecer ativo por mais de 48 horas e atingiu áreas de difícil acesso.

A situação exigiu a atuação conjunta de brigadistas voluntários, equipes do ICMBio e Corpo de Bombeiros. Aeronaves também foram utilizadas no combate às chamas.

Naquele momento, a dificuldade de acesso às áreas atingidas foi um dos principais desafios. Segundo relato do presidente da Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACVVC), havia locais em que os brigadistas precisavam caminhar durante horas para chegar às frentes de fogo.

Outras reportagens publicadas durante o episódio chegaram a estimar uma área atingida de aproximadamente dois mil hectares.

2025: fogo próximo ao Morro do Pai Inácio

Em março de 2025, outro incêndio de grandes proporções atingiu uma área próxima ao Morro do Pai Inácio, no município de Palmeiras.

O incêndio começou em uma área conhecida como Cerrado e se propagou rapidamente pela vegetação. Bombeiros e brigadistas voluntários participaram do combate, que se estendeu por vários dias.

Em outro episódio registrado naquele mesmo período, um incêndio iniciado nas proximidades da BR-242, perto da ponte sobre o Rio Mucugezinho, atingiu cerca de 85 hectares do Parque Nacional da Chapada Diamantina, segundo informações do Corpo de Bombeiros divulgadas pela UEFS.

Embora esses focos não tenham ocorrido no núcleo do Vale do Capão, os episódios reforçam a dimensão do problema no município de Palmeiras e em áreas próximas ao Parque Nacional.

2015: um dos períodos mais marcantes

Para quem vive na Chapada Diamantina há mais tempo, entretanto, poucos períodos ficaram tão marcados na memória quanto os incêndios registrados em 2015.

Naquele ano, brigadistas e voluntários passaram semanas combatendo diferentes focos de incêndio no Parque Nacional e em seu entorno. Em novembro, o fogo já vinha sendo combatido desde agosto em diferentes pontos da Chapada, incluindo áreas próximas ao Vale do Capão.

A dimensão dos incêndios levou à mobilização de brigadas voluntárias de diferentes localidades e chamou atenção para a recorrência do problema durante os períodos de estiagem.

Em determinado momento daquele ciclo de incêndios, focos na região da Serra do Sobradinho chegaram a ameaçar a nascente do Riachinho, uma importante fonte de água para a região.

O fogo também chegou a se aproximar de áreas habitadas, aumentando a preocupação entre moradores do Vale do Capão.

O ano de 2015 permanece, portanto, como uma referência importante para compreender a dimensão que os incêndios florestais podem alcançar na Chapada Diamantina quando as condições de seca, vento e vegetação favorável à propagação se combinam.

Antes disso, o fogo já fazia parte da história da região

A ocorrência de grandes incêndios no Parque Nacional da Chapada Diamantina não é recente.

Em 2013, por exemplo, um incêndio de grandes proporções atingiu áreas da região do Morrão, no Vale do Capão. O combate exigiu um grande esforço das brigadas para impedir que as chamas avançassem em direção ao morro.

No mesmo período, diferentes áreas do Parque Nacional enfrentaram focos de incêndio, incluindo regiões próximas ao Vale do Capão.

Em 2012, o fogo também atingiu a região da Serra do Candombá e outras áreas do Parque. Reportagem publicada pelo ((o))eco na época registrou a existência de diferentes focos e a participação de brigadistas voluntários no combate.

O histórico ajuda a mostrar que o problema não surgiu nos últimos anos. O que muda são a localização, a intensidade e as condições de cada temporada.

Por que o Vale é tão difícil de combater?

Uma das características que tornam o combate aos incêndios na região particularmente complexo é o próprio território.

O Vale do Capão está cercado por serras e áreas de relevo acidentado. Muitas das regiões atingidas pelo fogo não possuem acesso por estrada, fazendo com que os brigadistas precisem percorrer longas distâncias a pé carregando equipamentos.

Quando o incêndio ocorre em áreas mais remotas, o deslocamento até as frentes de fogo pode consumir horas.

Foi justamente essa dificuldade que ficou evidente durante os incêndios de 2024, quando brigadistas relataram que o deslocamento até determinados focos exigia várias horas de caminhada.

Em situações como essas, o conhecimento do território passa a ser um elemento fundamental para o combate.

E é justamente nesse ponto que a presença das brigadas locais se torna essencial.

Quem combate o fogo quando ele começa?

No Vale do Capão, a atuação dos brigadistas voluntários possui uma longa história.

A Brigada Voluntária do Vale do Capão, ligada à Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACVVC), atua na prevenção e no combate aos incêndios na região, muitas vezes sendo uma das primeiras equipes capazes de alcançar determinadas áreas.

O conhecimento acumulado pelos brigadistas sobre trilhas, serras, acessos e características da vegetação representa uma importante contribuição para as operações de combate.

Esse trabalho acontece em articulação com órgãos oficiais, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Corpo de Bombeiros.

A experiência das brigadas voluntárias também faz parte de uma história mais ampla de participação comunitária na proteção da Chapada Diamantina. O voluntariado para prevenção e combate aos incêndios na região possui raízes anteriores à própria criação do Parque Nacional, em 1985.

O período seco volta a exigir atenção

Os incêndios registrados ao longo dos anos mostram um padrão que se repete: durante os períodos de estiagem, a vegetação fica mais suscetível à propagação das chamas e as condições climáticas podem favorecer o avanço rápido do fogo.

No entanto, o clima não explica sozinho a ocorrência dos incêndios.

A ação humana também aparece historicamente como um dos fatores associados aos focos registrados na Chapada, seja por queimadas, uso inadequado do fogo ou outras formas de negligência.

Por isso, com a aproximação dos meses mais secos, a prevenção passa a ser responsabilidade não apenas dos órgãos de combate, mas também de moradores, proprietários rurais, trabalhadores e visitantes.

Memória do fogo

2012
Incêndios atingem diferentes áreas do Parque Nacional, incluindo a região da Serra do Candombá.

2013
Um grande incêndio atinge a região do Morrão, no Vale do Capão, exigindo atuação intensa das brigadas.

2015
A Chapada enfrenta uma das temporadas de incêndios mais marcantes das últimas décadas, com focos em diferentes áreas do Parque e do seu entorno.

2022
Um incêndio atinge novamente a Serra do Candombá, no Vale do Capão.

2023
A Serra do Candombá volta a ser atingida. Bombeiros, brigadistas do ICMBio e voluntários atuam no combate e no rescaldo.

2024
Dois focos simultâneos atingem áreas do Vale do Capão, incluindo as proximidades do Boqueirão e da trilha da Cachoeira da Purificação. Mais de mil hectares são atingidos nos primeiros dias do incêndio.

2025
Incêndios de grandes proporções atingem áreas do município de Palmeiras, incluindo regiões próximas ao Morro do Pai Inácio e ao Rio Mucugezinho.

Um alerta que se repete todos os anos

Cada incêndio deixa marcas diferentes na paisagem da Chapada. Alguns atingem áreas mais distantes das comunidades; outros chegam perto de trilhas, equipamentos turísticos, nascentes e residências.

O que permanece é a necessidade de prevenção.

No Vale do Capão, onde a relação entre comunidade, natureza e turismo faz parte da identidade do território, o combate aos incêndios também depende da capacidade de reconhecer os riscos antes que as chamas apareçam.

O histórico mostra que o fogo volta. A cada temporada seca, a região precisa novamente estar preparada.

E, quando um foco começa, o tempo faz diferença.

A prevenção, nesse caso, não é apenas uma medida ambiental. É também uma forma de proteger as pessoas, as nascentes, a biodiversidade, as trilhas e o próprio território que sustenta a vida e a economia da região.

O fogo que a Chapada não esquece também precisa servir como memória para aquilo que não pode ser repetido.

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