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A Flora do Vale do Capão

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A Flora do Vale do Capão

Talvez vocês já tenham percebido que os textos dessa coluna falam do Capão para falar do mundo. As questões e temáticas trazidas não são particularidades desta comunidade. O Vale do Capão funciona aqui como uma lupa do que acontece no mundo. Dito isso, acho importante lembrar que o mundo não vai bem, e não me refiro apenas a esse período pandêmico, mas ao modelo de sociedade que nos tornamos: acúmulo de riquezas na mão de poucos, exploração de muitos, extinção de espécies e recursos naturais, feminicídio, extermínio da população preta periférica, marginalização dos movimentos sociais, e por aí vai. A lista é longa. Talvez por isso eu tenha calibrado o limão nos últimos textos, ou seja, subido o tom da crítica. Também devemos considerar que boa parte do meu mapa astral está em virgem, o que não ajuda muito na manutenção do otimismo.

Hoje, no entanto, quero falar de coisas positivas, afinal, se não houvesse belezas nessa vida não estaríamos aqui persistindo. No Capão, espelho do mundo, não é diferente. Somos quase 3 mil pessoas habitando este lugar e é claro que não temos apenas os problemas com lixo, crescimento desordenado, especulação imobiliária, grilagem de terra, charlatanismos. Enfim, foco no positivo, Melissa! Já tem algum tempo que venho observando o caminhar de algumas pessoas, mais precisamente de mulheres, que escolheram viver aqui e que empreendem com muita verdade e carinho por esse lugar. Quando eu falo que “escolheram” é porque mesmo aquelas que nasceram aqui escolheram permanecer e construir suas vidas. Esta escolha não é de todo simples. Com poucas oportunidades de trabalho, a sobrevivência financeira requer um tanto de criatividade.

De acordo com alguns autores que tratam desse tema, o empreendedorismo feminino surge como busca de oportunidade de trabalho e autonomia financeira das mulheres, que historicamente são preteridas e subalternizadas no mercado de trabalho tradicional. Uma pesquisa realizada no Brasil pelo SEBRAE em 2019 aponta que 50% dos empreendimentos que estão em sua fase inicial são liderados por mulheres. De forma geral, as mulheres têm buscado o empreendedorismo como modo de driblar não apenas o desemprego, mas de juntar a insatisfação com os salários desproporcionais com a necessidade de mais tempo em casa. Longe de querer romantizar o empreendedorismo, pois tenho conhecimento de causa das dores e delícias desse caminho, gostaria de exaltar mulheres cheias de potência que conquistam seu espaço a cada dia.

Para começo de conversa, quero falar daquelas que nasceram aqui. Cresceram, talvez sonharam em ir para fora, estudar, ganhar o mundo, mas cá estão construindo seus negócios. Posso falar de Aila, minha amiga irmã, que com 27 anos é responsável por gerenciar junto com sua família o negócio mais conhecido do Vale do Capão, a Pizzaria Capão Grande. Da mesma geração que Aila, Marina e Caty, também nativas do Vale, empreenderam, abrindo a Creperia Vale Cristal e o restaurante Alma Bistrô, respectivamente. Gosto desses exemplos porque são mulheres que admiro, que têm suas fontes de renda ligadas à cadeia produtiva do turismo, mas que encararam o desafio de criar suas próprias oportunidades de trabalho e não viraram mão de obra barata de donos de pousadas ou restaurantes. Importante dizer que não se trata aqui de discurso de meritocracia. Muito provavelmente outras mulheres não trilharam o mesmo caminho por não terem os mesmos privilégios que elas. Ainda sobre a potência das “nativas”, posso citar Mara, Joziele, Alana, Ninha, Solange…Mulheres que empreendem no artesanato, na culinária e nas artes circenses.

Essa flora do vale, assim como a do mundo, é rica e cheia de diversidade. No time daquelas cuja escolha de viver aqui não se fez no nascimento, gosto de ver o trabalho de Mariane e seu olhar fotográfico sobre as mulheres; o cuidado e cura de Manjula; a coragem de Aline em criar um negócio super criativo e ecológico com seus PanEcos de cera, o profissionalismo de Carola, ou ainda a coragem e disposição de Sandra, mulher arretada que colocou esse portal no ar. Somos muitas a empreender e construir nossos sonhos. Não estou falando apenas de resultados financeiros. Para uma mulher o ato de empreender também está ligado a outros frutos: autoconfiança, autoestima, autonomia, empoderamento, força, coragem, inspiração. Reconhecer que podemos ser muito além daquilo que nos impuseram. Podemos ser o que quisermos!

Voltando à minha “lista” de homenagens, gostaria de falar das anciãs, Dona Landinha, uma mulher incrível que produz a melhor granola da face da terra; Nainha, que já teve um dos melhores restaurantes de comida caseira do Vale e que produz peças artesanais com ervas locais como ninguém; Neidinha, dona da Cheiro de Mato, pioneira na saboaria natural aqui no Vale do Capão; Dona Beli, Dona Dalva, Dona Si, que conduzem há anos os melhores restaurantes de comida caseira, compartilhando seu tempero com moradores e visitantes. Estas mulheres empreenderam quando o papel da mulher era ainda mais estigmatizado e sua função era apenas doméstica. Além de seus negócios elas cuidam da casa, filhos e netos. São mulheres que nos inspiram.

Faço parte de uma geração que já questiona essa imagem de força atrelada à jornada tripla das mulheres. Não queremos mais ser consideradas “guerreiras” por dar conta de tudo, queremos não precisar dar conta de tudo. Queremos que nossos companheiros partilhem a responsabilidade das tarefas domésticas. Queremos reconhecimento profissional. Queremos equidade de gênero. Queremos respeito à nossa voz e aos nossos corpos. Queremos liberdade. Queremos usufruir de todo potencial criativo que possuímos. O plano de silenciar e objetificar nós mulheres é um plano antigo, secular, no qual o patriarcado se consolidou enquanto sistema social e o machismo como uma lógica perversa enraizada no mais profundo das relações, por isso sua reversão é tão difícil. Minha teoria é que os homens perceberam o quão poderosas podemos ser e inventaram uma forma de nos reduzir a suas auxiliares domésticas. Brincadeiras à parte, estudiosas apontam que estas lógicas de dominação patriarcal estão atreladas ao advento do capitalismo, a propriedade privada, dentre outros.

Sim! Esse texto foi para celebrar a força criativa do Vale do Capão e com certeza faltaram muitos nomes. Somos muitas, cada vez mais, no mundo inteiro, a dizer “você não vai mais dizer o que eu posso ou não fazer”. Então, minha amiga, se você que está lendo esse texto ainda tiver alguma voz, interna ou externa, feminina ou masculina, te colocando para baixo, saiba que ela não tem nenhuma razão ou direito de existir. Vamos nos escutar, apoiar, acolher e fortalecer umas às outras. Nós somos inspiração! Acreditem!

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*O conteúdo dessa postagem é de inteira responsabilidade do autor da mesma

Melissa Zonzon
Melissa Zonzon
Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.

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