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A vida no campo tem outro tempo…

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A vida no campo tem outro tempo…

O isolamento social evidenciou a insustentabilidade do modelo de vida nas grandes cidades.

Pessoas confinadas em pequenos apartamentos, sem acesso ou contato com a natureza. Sem praia, sem rios, sem possibilidade de qualquer lazer ou socialização. Muito se ouviu falar em como manter a sanidade mental. Somado ao confinamento, o medo. Medo de morrer, medo de ser infectado, medo de infectar os outros, medo de perder amigos e familiares. Enfim, vocês que moram na cidade sabem disso tudo melhor do que eu.

Essa insustentabilidade, no entanto, já existia antes mesmo da pandemia. O fluxo da vida que corria entre engarrafamentos, luzes artificiais, ar condicionado, almoços corridos e noites mal dormidas. Esse era o “normal” de muita gente. Outros fatores como poluição e falta de mobilidade urbana já contribuíam para o fenômeno do êxodo urbano em diversas cidades do mundo e no Brasil. Segundo alguns autores e estudiosos, essa é uma macrotendência acelerada pela pandemia. Pesquisas do próprio setor imobiliário apontam para o aumento da procura por residências fora das grandes cidades, na medida em que a possibilidade do home office se consolida.

O Vale do Capão, comunidade rural localizada no município de Palmeiras, a 500km de Salvador, é um grande exemplo desta tendência.

Situado na Chapada Diamantina, região de montanhas, rios e cachoeiras, o Vale do Capão começou a receber novos moradores vindos das mais diversas partes do mundo na década de 80. Naquela época o povoado não possuía energia elétrica, havia uma grande escassez econômica e a população local vivia principalmente da agricultura familiar de subsistência. Poucos eram aqueles que se aventuravam em fixar moradia por aqui. Com o passar dos anos, a implementação de algumas infraestruturas e, sobretudo, o desenvolvimento do potencial turístico do lugar, a chegada de novos moradores foi se intensificando. O turismo se consolidou como principal atividade econômica e, para aqueles que vinham da cidade, uma oportunidade de mudar de estilo de vida e desenvolver uma atividade que gerasse renda.

Nos anos 2000, a chegada da internet intensificou o processo de ocupação do povoado. Ainda que precária, a conexão com a rede de internet possibilitou que o Vale do Capão se conectasse ainda mais com o mundo e algumas pessoas viram aí a possibilidade de desenvolver seus trabalhos remotamente. Foi assim que jornalistas, designers, fotógrafos, produtores culturais, arquitetos e diversos profissionais autônomos se mudaram para o Capão. Comigo não foi diferente, cheguei em 2012. Aqui pude escrever meu mestrado e em seguida desenvolver o trabalho de gestão de projetos socioculturais. Em 2012 havia uma média de 1500 habitantes. Alguns chamados de flutuantes, que são aqueles que passam uma parte do ano aqui e a outra parte viajando, geralmente a trabalho para alavancar recursos que viabilizem a estadia aqui no restante do ano.

Infelizmente não há dados oficiais sobre o aumento da ocupação do Vale do Capão nos últimos anos, mas estima-se que a população já tenha chegado a quase 3 mil habitantes. A possibilidade de sair da cidade e viver mais próximo à natureza com todo conforto, comodidade e fibra ótica seduz muita gente. A questão é que as pessoas saem da cidade, mas a cidade não sai delas. Assim vemos a procura e oferta de lotes de terra com tamanhos cada vez menores. O que antes eram grandes terrenos com área verde estão se transformando em loteamentos residenciais. A cada lote uma casa, uma fossa e muito lixo sendo gerado. Além da especulação imobiliária que tem gerado crises fundiárias como grilagem e invasão de terras, a questão do saneamento básico tem se tornado um dos grandes problemas no Vale do Capão.

Acostumados com a dinâmica das cidades, onde não nos preocupamos com o destino do nosso esgoto ou do lixo gerado em nossas casas, apenas damos descarga ou jogamos o lixo na lixeira do prédio sem termos que nos responsabilizar pelo seu destino

Assistimos de camarote os jiraus (lugar onde o lixo é depositado para coleta da prefeitura) do Vale do Capão transbordarem. Ali o lixo pode passar semanas, tendo em vista a irregularidade e insuficiência da coleta municipal, podendo ser arrastados até os rios em dias de chuva ou rasgados e espalhados pelos cachorros. Ainda que a coleta funcionasse regularmente, a questão não é apenas sobre a visibilidade do lixo espalhado pelas ruas do Capão, mas de seu destino: um lixão a céu aberto localizado em Palmeiras.

Por outro lado, saímos das cidades, mas só queremos nos deslocar de carro. Estes precisam de estradas asfaltadas para não termos tantos gastos com manutenção. Dentro da propriedade precisamos que o carro chegue até a porta para não nos sujarmos em dias de chuva, os terrenos estão sendo cada vez mais cimentados e como os lotes são pequenos, cabendo apenas a casa e a garagem, começam a surgir os muros para se manter uma certa privacidade dos vizinhos. E assim o cenário de um povoado na montanha rodeado por natureza vai, aos poucos, mudando de cara. A gente traz aquele animal de estimação que tínhamos na cidade ou adotamos outros por aqui, e assim a fauna do Parque Nacional, vizinha à comunidade, também vai sofrendo as consequências.

A vida no campo tem outro ritmo e outras prioridades

Quando chove ficamos mais em casa, internet e luz podem cair e tudo bem. Saímos de galochas para enfrentar a lama e comemoramos a cheia dos rios. Aqui é um lugar de montanha, no inverno faz frio, pode chover por meses e nesse período algumas coisas podem ficar mais lentas como o trabalho no quintal (ou do seu jardineiro, se tiver), na obra ou reforma que queira fazer. Aceite esse novo tempo. Nas estações mais secas e quentes podemos ter os problemas das queimadas e é muito importante apoiar as brigadas voluntárias, mas também podemos aproveitar as altas temperaturas para fazer passeios, trilhas, tomar banhos de rio e usufruir da natureza.

A produção agrícola também segue o ritmo das estações, então só teremos laranja no inverno, e por isso a demanda por alimentos fora de época implica em trazê-los cada vez mais de longe, gerando impactos ambientais como a pegada de carbono com os transportes e o uso de agrotóxicos para garantir uma produção ininterrupta durante o ano todo. Daí a importância de consumir os produtos locais. A vida no campo tem outro tempo. As relações afetivas antecedem às profissionais, as pessoas aqui não vão te responder com a mesma rapidez e profissionalismo que em São Paulo. Aqui definitivamente não é a sua vida da cidade com ar puro e sem engarrafamentos. Aqui deve ser outra vida.

É importante frisar que não quero dizer aqui que os únicos responsáveis pelos problemas gerados por esse crescimento desordenado são os novos moradores. Mas sim chamar a atenção para o fato de que o modelo de vida da cidade que nos acompanha nessa nova morada acaba intensificando os problemas. Aqui não há plano diretor, não há regras precisas de como e onde podemos construir, quanto de terra posso vender ou comprar, não há normas para a perfuração de poços, para a destinação de esgoto ou para cimentar áreas de várzea. Temos o privilégio de ter o Parque Nacional da Chapada Diamantina há alguns metros de casa e precisamos assumir a responsabilidade desta ocupação. Por fim, não é que eu seja perfeita. Comprei um terreno de pouco mais de mil metros, pois na época não tinha consciência destas questões nem recursos financeiros para comprar um maior; tenho três gatos que adotei pois estavam abandonados; e ainda utilizo muito o carro.

Mas a vida no campo tem outro tempo e precisamos enxergar nosso papel na manutenção desse espaço e tempo próprios para que continue sendo uma alternativa à vida na cidade e não uma nova cidade.

Melissa Zonzon
Melissa Zonzon
Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.
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