sábado, 21 maio, 2022
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    Aqui não é um Vale Encantado

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    Aqui não é um Vale Encantado

    Essa semana o país parou diante do caso de abuso sexual de uma criança de 10 anos pelo próprio tio, que resultou em uma gravidez. Essa frase é tão chocante que tive que reescrevê-la cinco vezes e ainda não acho que consiga transcrever a gravidade que carrega. Sim, uma criança de 10 anos era abusada pelo tio. Sim, isso durou alguns anos na vida dela e só veio à tona porque resultou em uma gravidez. Sim. Uma criança de dez anos grávida de seu próprio tio. O caso ganhou ainda mais visibilidade pois virou pano de fundo de uma disputa ideológica entre fundamentalistas, que se opunham ao aborto, garantido por lei em casos de estupro, e defensores dos direitos da criança e do adolescente, ou simplesmente, todas as pessoas com um mínimo de bom senso e humanidade.

    Depois de quase duas semanas de espera em meio a uma disputa judicial, a criança teve seu direito garantido e o aborto pôde ser realizado. Na porta do hospital um grupo de fundamentalistas insultava a menina e o médico que aceitou fazer o procedimento. Pela tela do celular acompanhamos essa história: a campanha para que seu direito fosse garantido, a pressão para que a justiça cumprisse enfim seu papel, o parecer favorável ao aborto. Imaginando a dor e o desespero desta criança. Assistimos também à manifestação de um grupo de fundamentalistas na porta do hospital. Espetáculo de horror. Cena desoladora. Do lado de cá da tela nos revoltamos, postamos, repudiamos, choramos e, por vezes, desacreditamos que chegamos a esse ponto. No fim do dia, pelas mesmas redes sociais que traziam as notícias quase em tempo real, vimos um grupo de feministas na porta do mesmo hospital escorraçar os fundamentalistas e apoiar e defender a menina. Meu coração se encheu de esperança quando vi essas mulheres, que saíram de suas casas, que se expuseram nas ruas em meio a uma pandemia, para defender uma menina de 10 anos.

    Infelizmente este caso não é isolado. Uma matéria da BBC traz dados alarmantes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019: “No Brasil são registrados 6 abortos por dia em meninas entre 10 e 14 anos”, ou ainda, “no Brasil a cada hora quatro meninas de até 13 anos são estupradas”. Estes números podem ser ainda maiores se considerarmos a grande subnotificação. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018, apenas 7,5% das vítimas de violência sexual notificam a polícia. Em suma, estes dados nos mostram o quanto a questão da violência sexual contra a mulher é algo naturalizado no Brasil e as versões mais perversas e avassaladoras de um machismo estrutural enraizado em todas as instâncias da nossa vida. Eu arrisco dizer que todas as mulheres já sofreram algum tipo de abuso na vida, e quando casos de violência sexual contra mulheres como esse dessa semana vêm à tona é como se cada uma de nós revivêssemos, ainda que inconscientemente, os nossos.

    O fato é que a questão da violência contra mulher é algo muito mais comum do que acreditamos. Aqui no Capão, por exemplo, volta e meia ouvimos de algum conhecido ou vizinho algo como: “Diz que que fulana apanhou do marido”, “Diz que fulana foi mantida em cárcere privado”; “diz que fulana quase morreu afogada pelo marido”. E por aí vai. Quem é morador do Capão vai saber do que estou falando. Aqui é um povoado com pouco mais de dois mil moradores. Todo mundo fica sabendo dessas histórias. Depois vemos os sujeitos andando pelas ruas como se nada tivesse acontecido. As mulheres-vítimas, por sua vez, quase sempre acabam indo embora. Não suportam continuar convivendo com seus algozes. A naturalização dessa violência faz com que casos parecidos como o desta semana aconteçam assim, perto da gente, sem que sejam denunciados nem mesmo problematizados. Quem no Capão não sabe de casos de abusos de crianças por familiares? Há algumas semanas uma mulher denunciou seu companheiro nas redes sociais, relatando toda a história de abuso e violência. Há duas semanas ouvimos falar “na boca miúda” que algumas mulheres relataram que foram abusadas pelo seu terapeuta.

    É isso minha gente, aqui não é um Vale encantado. A maior parte destes casos nem vai parar na polícia. A vítima silencia, pois na maioria das vezes o abusador é conhecido. É o marido, pai, primo, tio, terapeuta. Essa não é uma especificidade do Capão, é uma realidade do Brasil, mas olhar para a realidade local é como colocar uma lupa e vermos tudo de perto, ampliado. Conhecemos a vítima, o agressor, os familiares, os amigos. Precisamos urgentemente falar sobre isso, acolher as vítimas, denunciar os abusadores, desnaturalizar essa opressão silenciosa que muitas mulheres vivenciam. Precisamos nos inspirar nas mulheres dos movimentos feministas de Pernambuco que se juntaram na frente do hospital para proteger a menina-vítima. Precisamos de uma sororidade real. Não aquela que te custa 5 mil reais, te promete a cura pelo dinheiro e deposita em você toda a culpa do seu fracasso se não conseguir mais 8 mulheres para compor sua pirâmide. Sim, estou falando do tear dos sonhos, que nada mais é que uma pirâmide financeira, contra a qual tenho me posicionado publicamente, e que transformou muitas mulheres em estelionatárias. Ainda que elas acreditem que isso seja sororidade.

    Aqui não é um Vale encantado

    Esse lugar não é feito apenas das belezas naturais ou das energias dos cristais. Tampouco é feito só do acolhimento e afeto das pessoas, dessa sensação de liberdade que muitos visitantes e moradores relatam. Esse lugar é feito também de violência, de abusos e desamparo. Vocês podem estar achando tudo isso muito pessimista, e é. Mas fingir que nada disso acontece e continuar levando a vida cuidando apenas do seu sagrado feminino individual por meio de cursos e retiros com valores de quatro dígitos também não resolve. É preciso, notadamente, responsabilizar os homens, desnaturalizar as práticas de violência cotidianas, sejam elas psicológicas ou físicas. É preciso enxergar e combater todas as nuances do machismo, denunciando os agressores para que fique claro que abusar, violentar, bater ou torturar não é normal.

    Assim, para não dizerem que aqui só há críticas, apesar de o limão ser a minha especialidade nessa prosa, sugiro que nós mulheres fiquemos atentas umas às outras. Quando uma mulher for vítima de algum abuso cabe a nós mulheres, e à sociedade como um todo, acolher, ouvir e acreditar. Se você souber de algum caso de violência, denuncie. Vamos romper com a omissão, a naturalização e a banalização da violência de gênero.

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    Melissa Zonzon
    Melissa Zonzon
    Formada em Antropologia, mestre em Gestão Social pela faculdade de Administração-UFBA. Frequentadora do Vale do Capão desde 1992. Residente desde 2012. Trabalha com gestão de projetos culturais e socioambientais no Território da Chapada Diamantina desde 2012. Fundadora da associação Colmeia, sócia diretora da Araçá Cultura e Meio Ambiente.
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    13 COMENTÁRIOS

    1. Que forte…
      Obrigada por suas palavras. Consegui ler o que eu penso através das palavras de outra pessoa. De tantos casos ‘isolados’ o Vale é encantado, as pessoas que não são. Se tudo se harmonizasse . Ahhhhh que sonho!

    2. Arrasou Mel! Antes da quarentena rolaram alguns encontros presenciais com o tema do abuso, todos fortes e necessários. Muitos nomes de abusadores conhecidos vieram a tona, criamos um campo seguro pra todas se manifestarem, a rede de mulheres estava se articulando em real sororidade, mas sentiamos falta de uma profissional que pudesse segurar o psicologico da mulherada, pq mexer nisso de verdade não é facil não… muitas dores coletivas…

      • Que bom! Eu não estava sabendo desses encontros. Muito importante. E sim, um apoio profissional é super necessário. Vamos articular isso qua do as coisas “voltarem”. Abraço

    3. Muito bem colocado e necessário! Solidariedade é isso! É não normalizar a opressão e a exploração, é saber que a transformação externa também implica na interna e que um passo decisivo pra paz é que todas, todos e todes estejam em paz, longe da opressão, exploração e destruição da Natureza. Não existe paz individual.

    4. Bem colocado Mel. Em mais de 10 anos de Vale o que venho notado é que o “encanto” vai se perdendo dentro de nós quando vamos conhecendo o lado amargo. Somos privilegiados por viver em lugar lindo e especial mas não podemos fechar os olhos e fingir que não existem problemas. E problemas muito graves…

      • Acho que é por aí mesmo. Reconhecer os privilégios e os pontos positivos, mas não fechar os olhos para os problemas e tentar enfrenta-los de forma coletiva.

    5. muito bom artigo, parabens!
      isso é uma verdade que volta e meia relato(o quanto o machismo se faz presente dentro do nosso distrito), e algumas pessoas ainda tentam me contradizer, e eu digo o machismo infelzimente é “enraizado” no interior nordestino, mas que também aos poucos vai se quebrando esse enraizamento que nao tem nada de belo e tem que ser minimizado numa frequência rápida ate que chegue a zero. No Capão vejo nos ultimos anos os casos serem mais expostos, e acho q assim começa um movimento de fortalecimento !
      valew Melissa por trazer esse assunto tão importante.

    6. Muito bom seu artigo. Concordo com tudo. Quando voltarem a existir os encontros de antes da pandemia para falar sobre esses e outros temas, eu quero fazer parte.

    7. Palavras firtes, diretas sobre o tema. Vejo com esperanca quando alguem chama pela solidariedade, ou por discutir assuntos e temas que acontecem no nosso dia.dia e na nossa comunidade..Parabens Melissa. Todo apoio

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    O que seria do Vale do Capão sem os movimentos coletivos?

    O que seria daqui sem as atividades artísticas? Onde você levaria seu filho(a) se não tivesse o Circo, as escolas infantis? O que os hóspedes da sua pousada fariam no sábado à noite na vila se não tivessem os artistas de rua e músicos?

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