terça-feira, 27 fevereiro, 2024

Dulce

Dulce

O povo tinha e tem o hábito de passar mal às noites. Por isso muitas vezes fui chamado do sono, em meio ao escuro, para cuidar de alguém que não se sentia nada bem, tudo de ruim se passava e, para o sofredor, a morte rondava. E, quando era o caso de um parto – que também as mulheres se habituaram a preferir as noites – sabiam todos que a vida rondava!

Aí quando chegava na casa da pessoa enferma, ou da mulher pronta a trazer o milagre do nascimento, ali estava ela com o doce olhar, o sorriso feito de leveza, dizia:

– Já esquentei a água pra se precisar.

Assim era Dulce, um rosto angelical que com mãos curadoras afagava a alma dos vizinhos que passavam por difícil trânsito na saúde.

Após algum tempo já sabia que seria precedido por ela, o que, para mim, era um conforto, já que abreviava o tempo de atendimento, pois já aplicava a água quentinha pra aquecer a quem sofria e poder lançar mão de um chá ou um banho terapêutico.

Depois, à saída ela me perguntava se tinha mais alguma recomendação. De regra voltava para casa com a certeza de que ela não iria de imediato recolher-se. Aquela enfermeira prática aguardaria o sono repousante de quem padecia, esperaria o sinal da melhora mais efetiva.

Quanto a mim, recolhia-me ao leito certo de que a noite seria, a partir daí de sono livre.

Mas houve um tempo em que adoeceu grave, tendo sido levada a um hospital em Salvador. Não era de se queixar, e em certa medida foi surpresa para muitos (incluso eu) sua internação. Então um dia, do qual me lembro muito bem, estava na minha oficina quando chegou Gilmar, seu filho. Ele foi direto, sofria e não tinha como dizer de outro modo:

– Aureo, minha mãe morreu.

Não tinha como ser de outro modo… A vida tem seu curso, seus recursos, e em seus caminhos não me cabe necessariamente saber os porquês. Aprendi que há gente que não deveria ir e se vai, enquanto outros que melhor seria se fossem, quedam aqui entre nós. Também sei que nossos julgamentos tendem a ser falhos pela simples razão que nosso tino é pequeno e o mundo é imenso!

Recebam o meu abraço.

Áureo Augusto
Áureo Augusto
(Foto de Mariane Riani) AUREO AUGUSTO Caribé de Azevedo, soteropolitano, nascido em jan/1953, é médico, artista plástico e escritor. Escreve e dá cursos e palestras sobre medicina, história, filosofia, autoconhecimento, política, crônicas, contos e poemas. Reside e trabalha no Vale do Capão, Palmeiras-Ba, onde atua em clínica particular. Na Unidade de Saúde da Família local viveu a que considera sua mais bela experiência profissional, em um trabalho com atividades educativas, psicossomática, terapêuticas naturais, com foco na saúde e na felicidade. • Título de cidadão benemérito de Palmeiras concedido pela Câmara de Vereadores (Resolução n° 41 de 26/9/97). • Homenageado como Pioneiro nas Práticas Integrativas e Complementares no I Encontro Nordestino de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (UNIVASF, UFBa, UNEB, UFRN, UPE, UFPE, UFPB, UFCe, FA-SA), Juazeiro-Ba, 2 de junho de 2013. • Comendador da Ordem do Mérito Médico do Brasil, concedido pelo Ministério da Saúde (2017).
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